Cultura

Crônica: Poleiro vazio


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Chovia muito naquela manhã e ele, sem saber aonde ia, abriu a porta e saiu.

Debaixo do guarda-chuva preto, ia tramando seus pensamentos, tentando esquecer da cena que vira: o gato, na pia, sentado imóvel, com o pássaro na boca. A gaiola destroçada no chão e as penas, reticentes, ainda voando por cima da pedra fria.

Acabou o som das manhãs, pensou ele e seus olhos umedeceram. Com quem conversarei ou de onde esperarei minha pausa agora?

Há tantos meses vinha o periquito preenchendo seus vazios, que era difícil imaginar o pesado silêncio, dali para frente.

Ele pensou logo em comprar outro pássaro, mas a vida das aves lhe pareceu, naquele momento, tão triste e sem sentido. A gaiola era um parêntese, um resumo a que aquela alma, pequena e emplumada, havia sido adstrita por um breve compasso de tempo.

Teria o pobrezinho morrido cantando? Que gosto teria, para o gato, devorar algo que canta? Seria mais doce e sublime?

Mas, pensando bem, o gato não havia comido a caça. Era uma ação mais exibicionista a dele, manter a presa pendurada na boca, como uma crua medalha.

Sentiu-se pesadamente cúmplice do felino, no instante em que percebeu ter mantido o animalzinho refém de um destino tão cruel. Ele havia o colocado naquela previsível cilada. O gato fizera apenas a parte dele, sem suor. E não havia remorso na fisionomia felina. Nem tampouco um ar de vitória.

De repente, ele sentiu-se um carrasco e compreendeu que a música que tanto lhe adoçara os ouvidos, trazia uma recompensa tão cruel ao seu talentoso artista. E ainda atormentado pela culpa, ele estancou os passos, parando em frente a uma vitrine acesa.

Descompassando um pouco os seus remorsos, notou que um rádio antigo, ali exposto, tocava Carmem Miranda. Subitamente, ele sentiu alívio pelo passarinho. Lembrou-se que a morte o libertara da obrigação diária do canto.

E lá estava, aquela gaiola eletrônica, em alto e bom tom, aprisionando a alma de uma jovem que viveu no passado e, embora já ausente dessa vida, não conseguira levar consigo o seu canto. O mesmo canto que continua balançando vivo num poleiro vazio.

Luciana Gonçalves, Roteirista e colaboradora do Ju Machado - Escritório de Arte

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