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Sutilezas de sentido


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As mudanças lingüísticas podem assustar. Vossa Mercê virou Vosmecê, que virou Você, e “Cê” já é título de CD. Dá impressão que, um dia, a língua vai ficar monossilábica. Provavelmente, não. Ao mesmo tempo em que algumas palavras são reduzidas, outras surgem e ressurgem. A cada necessidade de exprimir um novo sentido, nasce um neologismo, uma justaposição, uma recriação. E assim a língua vai cumprindo seu papel de expressar significados. Os idiomas do mundo se diferem no modo de transmitir sentidos, a ponto de se poder afirmar que uma tradução de uma língua para outra é sempre, até certo ponto, uma versão. A língua portuguesa é uma das que permitem denotar a sutil diferença entre ser e estar. Ainda assim, no dia-a-dia, os sentidos surgem imprecisos. Um dia, alguém lhe diz: “Você é um chato” (arrogante ou coisa pior) e você sabe que apenas “estava” chato. Certas regências verbais, em parte, são mantidas até hoje porque preservam sutilezas. Ao sair empolgada do cinema, é bem comum a pessoa dizer que adorou o filme que assistiu. Se a questão cair num concurso, quem fez a lição de casa vai se lembrar de que adorou o filme a que assistiu. E de que a regência do verbo assistir é direta (sem a preposição a) quando no sentido de prestar assistência. Enfim, uma diferença gramatical que abriga uma diferença de significado. Curiosamente, certas nuances surgem a partir da linguagem popular e são ignoradas por alguns. Um exemplo: o verbo namorar. Gramáticas conservadoras dirão que “namorar com” está errado. Alguns autores (do porte de Aurélio e Houaiss), porém, registram a forma “namorar com” como uma variação de “namorar fulano”. Cito aqui um professor, o lingüista Sírio Possenti: “suponhamos que você seja uma pessoa insegura e precisa saber se vai namorar o/a ou com: qual seria sua companhia predileta, a dos gramáticos e dicionaristas ou a dos fornecedores de receitas líquidas e certas, que não estudam verdadeiramente a língua e exatamente por isso fornecem receitas claras e seguras?”. Observe, no entanto, que não se diz “namoro com uma vitrine” (se alguém encontrar um registro, me conte). As pessoas podem até namorar com Fulano ou Beltrana, mas preferem namorar uma vitrine, um carro, um acessório de grife. Ou seja, a variação “namorar com” não é utilizada no sentido de cobiçar/paquerar, mas apenas quando se namora na companhia de alguém. Eis que, possivelmente, tenha surgido aí uma nuance de sentido. Talvez, em vez de implicar com essas coisas e barrar as mudanças, o melhor mesmo seja namorar (com ou o/a) — também vale estudar a fundo um bom número de autores, e não um único manual. Uma amiga lembrou-me da sabedoria do Teatro Mágico ao pontuar que “errado é aquele que fala correto e não vive o que diz”. P.S.: sobre as mudanças ortográficas anunciadas, eu não desgosto nem gosto. Como já disse, ortografias são instituídas por lei. Mudam, mas continuam arbitrárias em boa medida. Tenho ouvido manifestações preocupadas sobre o empobrecimento da língua. Volto a dizer que nossos avós devem achar muito estranho que não se escreva mais farmácia com ph. É natural estranharmos que, de uma hora para outra, formas verbais como “vêem” ou “crêem” percam seus circunflexos. Mas, dificilmente, algum brasileiro achará esquisito que, em Portugal, não se utilize mais o “c mudo” em palavras como “acto”. Em resumo: estranho é aquilo com que não estamos acostumados.

A autora, Érika de Moraes, é jornalista, mestre e doutoranda em Lingüística pelo Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp. E-mail: erikademoraes@hotmail.com

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