Computador, videogame, celular, boneca que fala, tênis com luzes ou rodinhas. A tecnologia do mundo contemporâneo também invadiu o universo infantil e as crianças de hoje, fatalmente, não são as mesmas de anos atrás. Cada vez mais, elas fazem as próprias escolhas e impõem sua opinião, mergulhadas em um universo sem fim de opções que a modernidade oferece.
As brincadeiras com a turma na rua são cenas cada vez mais raras nos dias de hoje, dado o crescimento da violência urbana nas cidades. E com as novidades saltando diante dos olhos nos anúncios publicitários, brincar de pião, corda e peteca já não parece mais tão divertido.
Essas são algumas das características da criança atual, segundo a psicóloga Maria José Barbosa, especialista em psicologia clínica e no atendimento de famílias com crianças. Hoje, data em que se comemora o Dia da Infância, elas somam em Bauru quase 78 mil meninas e meninos com idades entre 0 e 14 anos, segundo estatísticas da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), compreendendo cerca de 22% da população da cidade.
Como a grande maioria dessas milhares de crianças, Pedro, de 7 anos adora passar horas se divertindo com jogos de computador, videogame ou assistindo televisão. Mas a mãe dele, a publicitária Estela Caldeira Jarussi, jura que tenta controlar o passatempo que acredita ser prejudicial, se em excesso.
“Eu tento policiar um pouco, incentivo a jogar bola. Como eu trabalho fora, às vezes essa tarefa fica a cargo da empregada. Dentro do possível, tento controlar”, afirma. Pedro pratica basquete e judô durante a semana, mas Estela confessa que, se dependesse da escolha do filho, o videogame e o computador ficariam ligados o dia todo.
“Há muitos jogos extremamente atraentes para as crianças. Esses jogos são divididos em etapas, o que estimula a criança a ficar cada vez mais tempo brincando”, destaca.
Computador
Já Júlia, de 11 anos, a outra filha de Estela, não se empolga muito com os joguinhos do irmão, mas usa o computador para fazer pesquisas para os trabalhos escolares. Para se divertir, ela gosta de ir ao cinema, passear no shopping ou viajar. Por escolha própria, neste ano Júlia decidiu fazer somente o curso de inglês. “Ela já fez balé, vôlei e street dance, mas agora quer se dedicar somente ao inglês”, diz.
Estela confessa que o bombardeio de propagandas na televisão se torna desleal na hora da compra de presentes, sempre escolhidos pelas crianças. “No aniversário desse ano, a Júlia já mudou de gosto. Até o ano passado, ela só ganhou presentes de criança. Neste ano, já pediu uma bolsa. As amiguinhas têm a mesma idade, e o gosto delas é o mesmo”, observa. De acordo com Estela, Pedro é mais exigente e gosta de ganhar carrinhos, tênis e jogos de computador e videogame. Os irmãos também possuem, cada um, um aparelho celular para facilitar a comunicação com os pais.
____________________
Prejuízo
Para a psicóloga Maria José Barbosa, a tecnologia trouxe inúmeras vantagens para o ser humano, como o avanço dos estudos científicos e o encurtamento de distâncias. Em contrapartida, o uso descontrolado e irresponsável dos equipamentos modernos pode causar, segundo ela, danos irreparáveis às crianças. “Hoje a tecnologia dá para a criança tudo o que ela gostaria que um brinquedo fizesse, mas tira da criança o sonho, a emoção, a fantasia e principalmente a criatividade, que é o que lhe daria um suporte emocional maior”, acredita, ressaltando que uma boneca que anda, fala, chora e mama dá pouca oportunidade para a criança usar a imaginação.
De acordo com Maria José, a tecnologia, se mal utilizada, pode gerar adultos que acreditam ser onipotentes, e que enfrentam dificuldades em lidar com frustrações e aceitar o “não”. “Essa educação globalizada mostra para a criança que ela pode tudo. Isso faz com que, emocionalmente, a gente tenha adultos muito despreparados, com um nível intelectual muito alto, mas que não conseguem se relacionar e estabelecer vínculos”, afirma.
Essa sensação de onipotência, segundo a psicóloga, estaria sendo incentivada também pela falta de tempo dos pais, que se culpam pela ausência em função do trabalho. “Os pais acabam fazendo uma troca: trabalham 12 horas por dia e nunca dizem “não” aos filhos, como uma maneira de compensar essa ausência, que, claro, não pode ser comprada através de um brinquedo ou um tênis de marca. O mais importante é a qualidade do relacionamento que eles têm com os filhos”, frisa, enfatizando que mesmo com pouco tempo, é possível educar e dar atenção aos pequenos, sem delegar essa tarefa para a escola, a babá ou a creche.
Como forma de retomar a qualidade de vida e o contato com aquilo que é próprio do ser humano, Maria José acredita que tanto os pais quanto as crianças estejam buscando mais contato com o passado e com a natureza. “Acredito que o homem esteja estressado com tanta tecnologia que o rodeia e esteja indo ao encontro dele mesmo, resgatando sua identidade enquanto ser humano, dentro de um mundo tão robotizado”, finaliza.
É justamente com essa intenção que a publicitária Estela procura diversificar os passeios com Júlia e Pedro. “Sempre que possível, os levo a chácaras ou ranchos de amigos. Fazemos passeios a cavalo, participamos de um almoço caipira. Acho importante esse contato para fugir um pouco da correria do dia-a-dia”, diz.