Sem saber, o bauruense pode estar consumindo alimentos modificados geneticamente, os chamados transgênicos, já há algum tempo. Eles estão entre nós e nem sempre é possível notar sua presença nas prateleiras dos supermercados.
De acordo com determinação do governo federal, os produtos com material genético alterado devem circular com uma identificação especial. Todos deverão ter impresso na embalagem um selo triangular com a letra “T”. Para facilitar a visualização, nas embalagens coloridas o símbolo será amarelo com a borda e a letra “T” pretas. Nas embalagens em preto-e-branco, o fundo pode ser branco. O selo vale tanto para alimentos destinados ao consumo humano como ao de animais com pelo menos 1% de organismos geneticamente modificados (OGMs).
Apesar da recomendação, tanto o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) quanto ambientalistas já denunciaram em várias ocasiões que alimentos industrializados à venda no País possuem OGMs importados entre seus ingredientes.
De acordo com a nutricionista Sylvia Tosi, “nós já comemos soja e outros alimentos transgênicos há muito tempo”. A afirmação é reforçada pelo professor titular de genética Jehud Bortolozzi, do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. “Hoje, estamos comendo muita coisa transgênica sem saber porque, na maioria dos casos, os produtos não trazem nada escrito (sobre a procedência) na embalagem.”
A rotulagem é uma reivindicação das organizações não-governamentais (ONGs), mas está sendo aplicada contra a vontade da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia). A entidade alega que o uso do selo seria uma propaganda negativa para os alimentos. Segundo ela, o tipo de selo escolhido pelo governo - de fundo amarelo e preto - geralmente é usado em placas de advertência e “perigo”. Mesmo contrariando a vontade da Abia, a obrigatoriedade do selo continua em vigor, segundo informou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
No caso dos alimentos industrializados que estão à venda e que, segundo as ONGs, têm transgênicos em sua composição, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) alega que são de produtos liberados para consumo pela Anvisa.
Para ficar
Organizações ambientalistas defendem maior rigidez em relação a esses produtos ou até seu banimento, alegando que poderiam prejudicar os consumidores e afetar o meio ambiente. No entanto, estudos realizados em todo mundo há quase uma década não confirmam o perigo.
De acordo com o biólogo Marcelo Menossi, coordenador do Laboratório de Genoma Funcional da Unicamp, não existe nenhum estudo que aponte problemas decorrentes do uso e do consumo de alimentos transgênicos. Ele lembra que nos Estados Unidos esses produtos são comercializados há muito tempo sem que nada de errado tenha sido verificado até o momento.
“Mesmo depois de toda a polêmica que criaram em torno dos transgênicos, não tem nenhum trabalho científico que prove que eles fazem mal à saúde”, reforça o professor Bortolozzi, que acredita que os alimentos transgênicos vieram para ficar. “A tendência é que outros produtos sejam liberados.”
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Sem controle
Ainda não se sabe ao certo quais e quantos produtos possuem ingredientes modificados geneticamente. Nem mesmo os supermercados tem esse controle. Kosilek Ferraz, 34 anos, coordenador do setor de mercearia de uma rede de supermercados em Bauru, diz que é comum clientes perguntarem se determinado produto têm ingredientes transgênicos. No entanto, encontrar respostas para esses questionamentos não é nada fácil. “Se não tem o aviso na embalagem, fica impossível saber”, revela ele.
Em 2003, o Greenpeace Brasil e o Idec solicitaram análise de produtos brasileiros em laboratórios europeus. Em 11 lotes de produtos vendidos no Brasil foram encontrados soja e milho transgênicos. Por causa do medo dos consumidores, algumas empresas de alimentos já exibem na embalagem um selo com o aviso de que seu produto não contém transgênicos.