Já senti quase na pele o que é ser brasileiro nos Estados Unidos. É tabulado de latino-americano subdesenvolvido, de forma subestimada. Você é colocado em segundo plano. Isto aconteceu em 1986, na cidade de Atlanta, terra da Coca-Cola e do Luther King. Não foi fácil entender, pois até então imaginava equivocadamente que desenvolvimento intelectual e riqueza material provocavam proporcionalmente desenvolvimentos moral e espiritual. Uma decepção.
Na época, naquela cidade, se um negro mudasse para um bairro de brancos, os brancos sutilmente se mudavam para um outro bairro. Alguns amigos solteiros que lá residiam comentavam que para ficar com garotas americanas tinham que mentir dizendo serem italianos ou franceses, pois se falassem que eram brasileiros eram discriminados. É lógico que não quero aqui generalizar, pois existem as exceções, mas pelo que percebi eram poucas naqueles anos e percebo que não mudou muito nos dias atuais.
Considerando isto, uma notícia que me deixou extremamente feliz foi a do senhor Carlos Slim, 67 anos, mexicano, ter passado a perna no americano Bill Gates e se tornado o homem mais rico do mundo. Detalhe interessante: Slim nunca usou pessoalmente o computador. Aqui no Brasil, o bilionário mexicano controla a Claro, a Embratel e 49% da TV por assinaturas NET. O mundo dá voltas mesmo. Saem os velhos ricos de cena e entram os novos.
Essa notícia demonstra que o sucesso pode surgir em qualquer país. Os fatores que contribuem para isso são diversos, bastante realçados em revistas de negócios, mas com certeza não têm nada a ver com a nacionalidade.
Nesse contexto, a palavra-chave é preconceito, que significa opinião formada sem reflexão ou discriminação social, e que é resultado essencialmente de ausência de vivência. Percebe-se que uma pessoa está em um elevado nível ético quando é independente para discernir, sem se basear em paradigmas sociais, bem como não ser fantoche de suas regras inconscientes.
Geralmente a nossa mente está repleta de preconceitos por sermos muito mais teóricos do que práticos. Tem gente que lê ou ouve falar e acha isso o suficiente. Se fosse assim, bastaria o mundo ser uma grande biblioteca, onde a vida se resumiria em ler e conversar apenas. A teoria é importante, mas vivenciar é muito mais. O saber vem da vida. Os teóricos são incompletos e inconsistentes.
Não podemos ignorar que cada indivíduo tem um ponto de vista que é correto, de acordo com suas idades moral e espiritual. Homens desenvolvidos são todos aqueles que aprenderam a distinguir a essência das coisas. Sabem decifrar sem julgamentos prévios os eventos da vida. Por isso, é tão bom saber que o fluir do tempo traz nova oportunidade para nos desvencilharmos de preconceitos, velhos conceitos, ilusões e pensamentos obsoletos. Viva os novos tempos. Viva o mexicano Carlos Slim.
Davison de Lucas é diretor da M.Davison & Associados, consultor organizacional e palestrante.