Eles têm entre 3 e 6 anos de idade e estão no auge da peraltice. Cheios de energia para gastar com brincadeiras e mais brincadeiras. Mas quando, das caixas de som do microsystem improvisado no pátio, começam a sair os primeiros acordes do hino de Bauru, toda a tropa se enfileira e (pelo menos) tenta cantar a difícil música. Não, não se trata de uma cena resgatada do passado, mas sim de algo que ocorre pelo menos uma vez por semana na Escola Municipal de Ensino Infantil (Emei) Márcia Andaló Mendes de Carvalho, que fica no Parque Roosevelt.
Ao contrário da tendência quase natural do “esquecimento” de raízes cultivadas com fervor no passado, a Emei segue mantendo a tradição há sete anos. Isso tudo mesmo sem ter sistema de som adequado e muito menos postes próprios para hastear as bandeiras. No final, a improvisação acaba ajudando. Assim, mais crianças podem segurar o símbolo nacional e o da cidade. Um motivo de disputa que instiga ainda mais os pequenos a participar do chamado culto à bandeira.
Começa o hino de Bauru. Alguns arriscam cantar, mas é mesmo na hora do refrão que eles entoam o coro de verdade. “Brasileira nação” é parte que mais gostam. Logo depois vem o Hino Nacional. A massa sonora se torna mais forte com as boquinhas se movimentando e soltando a voz no ritmo da música. Nesse momento, a impressão que se tem é de que esses garotos, mesmo que se tornarem jogadores de futebol, não vão esquecer a letra diante de uma platéia mundial.
Hugo William Gomes da Silva, Matheus Rogério Rodrigues e Laura Aparecida dos Santos, todos na mesma faixa de idade, não sabem muito bem o significado de tudo aquilo, mas prontamente afirmam gostar de cantar os hinos. “É legal porque é o de Bauru e o do Brasil”, diz a integrante da ala feminina. “Eu não esqueço nunca mais”, afirma Hugo. “Tem amigo meu que não sabe cantar e eu acho que ele deveria saber”, finaliza Matheus.
Mesmo sem perceber, as crianças, além de fazer um resgate histórico das tradições brasileiras, exercitam a socialização. “Eles começam a tomar contato com a noção limite e respeito necessários em certos momentos. Noção de que em certas situações, é preciso manter uma postura diferente”, afirma a diretora da Emei, Sandra Ângelo Rodrigues.
Segundo ela, o momento do hino virou tradição na escola desde quando a prefeitura fez a distribuição de CDs para todos os colégios da rede, em 2000. O culto ocorre todas as quartas-feiras logo na entrada para a aula. Durante a Semana da Pátria, a solenidade é repetida diariamente.
“É a nossa cultura. Isso tem que ser mostrado desde cedo para que eles (alunos) se familiarizem com as músicas e comecem a desenvolver a questão da cidadania. Nessa faixa de idade começa o processo de formação da personalidade e, com certeza, algumas dessas noções serão relembradas mesmo que involuntariamente no decorrer da vida”, acredita Gislaine Maria de Souza Navarro, professora que introduziu o culto à bandeira na Emei.
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Alunos gravam CD
Na Escola Preve, a execução do hino de Bauru também é um hábito cultivado desde 2001, quando os alunos do ensino fundamental da escola, sob a regência da professora Gisele M. F. Matheus, participaram da gravação de um CD com a música.
Hoje o hino é cantado por todos os alunos, da educação infantil até o 9º ano, em todas as comemorações cívicas e eventos oficiais da escola, segundo Mara Adriana Zuim Garcia, diretora pedagógica do 6º ao 9º ano do Preve. “Os alunos não só sabem cantar como os professores de português fazem todo início de ano um trabalho de interpretação do hino, explicando o que significa cada frase para que eles saibam o que estão cantando, como é feito com o Hino Nacional”, conta a diretora.
“Esse ano, em especial, a escola está fazendo um projeto chamado Feli(z) cidade, com o objetivo de estimular a realização de ações que melhorem a cidade, então o hino tem sido mais trabalhado ainda”, completa.
Segundo a diretora, conhecer e se habituar com o hino faz com que os alunos mudem seus sentimentos em relação a Bauru. O efeito é percebido com mais clareza quando alunos chegam transferidos de outras escolas nas quais não tinham o costume de cantar a música. Uma vez que o hábito quebra a resistência, eles percebem o quanto é importante cuidar do local onde vivem.