Por volta de 1988, visitando uma das usinas de açúcar e álcool da família Balbo, na região de Sertãozinho, Interior de São Paulo, me surpreendi ao ver câmeras fiscalizando trabalhadores na área industrial. Afirmava um dos diretores daquela organização que não era aconselhável confiar. Dizia: “Com raríssima exceções o funcionário é disciplinado e verdadeiro”.
Na época discuti muito com algumas pessoas que atuavam em RH em outras empresas, que foram unânimes em considerar aquela situação um absurdo. As câmeras simbolizavam claramente a desconfiança nas relações. Eu questionava “o que fazer numa situação dessa?”
Discutimos muito as teorias de alguns estudiosos da área sobre necessidades do ser humano e fatores motivacionais. E todos desse grupo de profissionais especializados em pessoas eram categóricos em afirmar a importância de se criar mecanismos de motivação para que ocorresse a máxima produtividade e a fiscalização se tornasse desnecessária.
Resultado dessas discussões na época: o ser humano precisa de riscos e perspectivas atuando simultaneamente em suas linhas de raciocínio para se motivar a fazer o correto e menos de fiscalizações. Em outras palavras, se retirar os radares das estradas, o motorista se mantém a dirigir seu veículo dentro da velocidade limite. Pura teoria. Na prática é bem diferente.
Eis alguns exemplos: em algumas rodovias norte-americanas, satélites fiscalizam velocidades dos carros e atos de jogar lixo na estrada. No descumprimento das leis, a multa é enviada via e-mail em processo automatizado. O povo americano é disciplinado religiosamente e bem informado, e mesmo assim a fiscalização se faz necessária.
Em Londres já são mais de 50 mil câmeras distribuídas pela cidade fiscalizando os cidadãos ingleses, educados, disciplinados e cultos.
Surpreendi-me, agora em 2007, ao saber que vendedores externos usuários de veículos da empresa, em algumas organizações, estão sendo rastreados via satélite. Esse tipo de serviço informa os itinerários, momentos em que o veículo esteve parado e em movimento, bem como a velocidade. Fala de um cliente meu que contratou tal serviço: “Como tem vendedor mentiroso. Gente que achava ser de confiança”.
Alguns auditores de ISO 9000 são categóricos em afirmar que se retirar a auditoria dessa certificação, a maioria das empresas certificadas volta ao que eram antes dos novos padrões de qualidade. Veja bem: são empresas conceituadas, com gente estudada e geralmente com mecanismos motivacionais de vanguarda.
A verdade verdadeira, como é dito popularmente, é que de maneira geral estamos atrasados moralmente. De maneira geral, tendemos à acomodação e não somos confiáveis. Não bastam fatores motivacionais. Tem que ficar de olho. Basta ver pessoas religiosas, esforçadas na pratica do bem, orando pai-nosso. Se é dito pai-nosso, todos deveriam ser tratados pelo rezador como irmãos. Com raridade se vê isso. Não cumprem o prometido. Da mesma forma, quando oramos “perdoai nossas ofensas, assim como perdoamos quem tenha nos ofendido”, nesses casos mentimos ao nosso Criador. Se fazemos isso ao nosso Pai, imagine agora entre nós, simples mortais?
Nessa linha de raciocínio, todas as religiões do bem pregam “orar e vigiar”, que deve ser interpretado como rezar e vigiar seus pensamentos e ações. Portanto, a religiões pregam abertamente a autodesconfiança. Em face disso, fica aqui uma questão: qual é o problema de ser vigiado? A consciência limpa não teme. Pessoas honestas fazem compras em supermercados cheios de câmeras com dizeres “sorria, você está sendo filmado” e não se incomodam.
A tecnologia tem demonstrado ser um forte aliado para o desenvolvimento moral, pois está contribuindo para uma transparência maior. A verdade será sempre a melhor política em todas as situações do cotidiano. Liberar-se da cultura da mentira requer novos mecanismos e pelo visto muita tecnologia. No estágio em que nos encontramos, a verdade tem que ser vigiada, infelizmente. O progresso é inevitável. No futuro, acredito eu, teremos a verdade espontânea, com mais liberdade.
Davison de Lucas é consultor organizacional e palestrante.