A história do Êxodo bíblico começa a se estruturar com a ida de José e seus irmãos ao Egito. A fome levou-os. A vontade de ficar num lugar onde havia comida e conforto material, tornou-os escravos da matéria. O conhecimento espiritual, do qual Moisés é o grande símbolo, quer tirar o povo desta escravidão. Ele duela com o poder material que escraviza através do desejo pela posse das coisas. Antes da peregrinação pelo deserto, Moisés batiza o seu povo nas águas do mar. Todos aqueles que deveriam receber o conhecimento são lavados na água e sal, a origem de todas as coisas. O deserto é um lugar de provações e a ausência de água significa ausência de vida. Mas, por que 40 anos de peregrinação em um deserto que pode ser atravessado em sete dias?
Para que ninguém da velha geração chegue à Terra Prometida. Todos aqueles nascidos no Egito morrem antes, inclusive o próprio Moisés. A Terra Prometida será sempre dos filhos e netos se, hoje, criarmos condições para que o conhecimento espiritual seja absorvido por eles. O Egito representa um lugar que “já foi bom” e deixou de ser. Todos nós deparamos com lugares que se tornam estreitos em determinado momento. Estes lugares, que outrora serviram para nosso desenvolvimento e crescimento, se tornam apertados e limitados.
Segundo o relato bíblico, o processo de saída do Egito esbarra num limite real e profundo: o mar. Arrependido por ter permitido a saída dos hebreus após sofrer dez pragas diferentes, o faraó os encurrala junto ao mar. Entre o exército mais poderoso do mundo de então e o mar, os hebreus se voltam ao líder Moisés em desespero. O que fazer? Cercado diante do mar, o povo, que poderia representar o corpo, assume algumas posturas possíveis: divide-se em acampamentos. Um quer voltar, outro lutar, um terceiro se mobiliza em oração.
Essas três posturas representam resistências do corpo. A própria idéia de acampar é, em si, uma forma de “empacar”. Aquele que propõe o retorno reconhece o poder do lugar estreito. Este lugar do hábito é tão poderoso que foi uma ilusão se deixar levar pelo sonho de sair. Lutar, por sua vez, é a crença de que se poderá fazer do próprio lugar estreito um lugar mais amplo.
Orar é um recurso de fazer da situação do “novo” uma reprodução do lugar estreito. Numa aparente resolução das demandas da alma, o corpo exige que a realidade seja “compassiva” com ele. No capítulo 14, versículo 13 do Êxodo está a reação de Moisés, o líder e representante dos interesses da alma (o empreendedor da saída do lugar estreito): “E disse Moisés ao povo: (1) Não temais, ficai e vede a salvação do Eterno; (2) porque os egípcios que vedes hoje não volvereis a vê-los nunca mais: (3) o Eterno lutará por vós e (4) vós vos calareis”.
Temos aí a resposta. Aos que desejavam voltar: “não temais, ficai; não volvereis a vê-los nunca mais”. Aos que se propunham lutar: “o Eterno lutará por vós”. E aos que oram: “vós vos calareis”. Nenhum dos acampamentos representa o futuro e a saída. Todos eles representam ou são variações sobre a hesitação e a vacilação. Mas, se nenhuma dessas condutas é apropriada, qual é o caminho? A resposta proveniente da fonte de toda alma e todo futuro, as vacilações do corpo, é igualmente decisiva e intrigante. Está em Êxodos 14:15: “Diga a Israel que marche”.
Marchar, dar andamento, a quê? Para onde? Que solução óbvia é essa que a Divindade apresenta pela qual nenhum acampamento, ou nenhuma perspectiva do corpo, consegue dar conta de uma saída? Um homem chamado Nachshon ben Aminadav, que não sabia nadar, começou a adentrar as águas. Somente quando o homem estava com água no nível do nariz, ela se abriu. Diferente até daqueles poucos que queriam se jogar ao mar como forma de desesperança no futuro, Nachshon compreende a recomendação do Criador: “marchem”.
O futuro existe se Vocês marcharem. O futuro, porém, não está ligado ao presente pelo corpo. A alma guiará o caminho seco por meio do molhado de uma margem a outra. Saber abrir mão desse corpo na fé é saber dar o passo que leva até onde “não dá mais pé”. Enquanto der pé, estaremos estacionados em acampamentos. Quem atravessa o mar não é o corpo. É a alma. Quem resolve sair do lugar estreito é a alma, o corpo não gosta de sair, de mudar. São a estreiteza, o desconforto e a dor que convencem o corpo de que não existe outra saída. Mas, para onde ir se o corpo não conhece nada diferente de si mesmo? A alma assume o controle. Ela impõe uma caminhada que para o corpo acaba por ser um enfrentamento com uma barreira aparentemente intransponível.
Como seguir rumo à Terra Prometida, se entre o presente e o futuro existe um fosso, um mar? O corpo, então, questiona a sensatez da alma. Os portões do passado se fecham; os do futuro não estão abertos e o corpo experimenta a mais temida das sensações – o pânico de se extinguir. Este profundo ato de confiança que o corpo precisa ter em relação à alma e no processo da vida garante a passagem pelo vazio que, magicamente, se concretiza em chão sob nossos pés. O que não existia passa a existir e um novo lugar amplo se faz acessível.
O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia - Unesp-Bauru