No extremo sul do continente asiático, abaixo da Península Malaia, localiza-se o Estreito de Malaca. Com extensão de 800 quilômetros, o Estreito de Malaca separa Cingapura da Indonésia. Esta é a rota anual de 60 mil cargueiros, transportando um terço do comércio mundial; pelo estreito trafegam 80% das importações chinesas de petróleo. A comunidade internacional, no que se refere ao Estreito de Malaca, preocupa-se com a pirataria (o International Maritime Bureau registrou 50 ataques piratas, no decorrer do ano passado) e com os ataques terroristas do braço indonésio da Al-Qaeda, conhecido como Jemmah Islamiyah. Estas preocupações justificam a presença da marinha norte-americana na região. Os mariners realizam patrulhamento sistemático, utilizando um porta-aviões, dois submarinos nucleares e duas ou três dúzias de contratorpedeiros e fragatas.
Eis o cenário inesperado do confronto entre o dragão e a águia: a China precisa do petróleo, que passa pelo Estreito de Malaca, para manter sua pujança econômica, e sabe que qualquer entrave ao crescimento causaria instabilidade social e destruiria a legitimidade do regime comunista. Como a Marinha dos EUA transformou-se na polícia do Índico, existe a possibilidade de que, num eventual conflito entre China e Taiwan, os EUA fechem a passagem de Malaca, estrangulando a economia chinesa. Eis um risco que causa arrepios nos corredores do Grande Palácio do Povo, a sede do governo comunista chinês. A primeira providência reativa consiste em ampliar a Marinha de Guerra chinesa: estima-se que a frota chinesa sobrepujará a norte-americana no ano de 2015, em número de navios. Os chineses pretendem ter, no Oceano Índico, no ano de 2020, dois porta-aviões, oito submarinos nucleares, 18 contratorpedeiros e 30 fragatas. E como reduzir a vulnerabilidade comercial, no curto prazo? Como sair logo do “Dilema da Malaca”? A solução encontrada foi a de se construir um oleoduto de 1.200 quilômetros, atravessando um país chamado Mianmá: os petroleiros viajariam 3.300 quilômetros a menos e não passariam mais pelo fatídico estreito de Malaca. Mianmá ganhou este nome em 1989, quando um violento golpe de Estado derrubou os governantes da antiga Birmânia. Com a nova e exótica denominação, o país tornou-se uma das mais violentas ditaduras do planeta. Diante dos abusos contra os direitos humanos, promovidos pelos generais, o Ocidente decidiu isolar Mianmá com sanções econômicas. As ameaças econômicas lançaram este país do Sudeste Asiático para a esfera de influência chinesa, que usa seu direito de veto, na ONU, para proteger o seu novo aliado. Acostumada a colocar seus interesses comerciais acima de qualquer outra preocupação, a China bajula os generais sanguinários de Mianmá para se livrar do “Dilema de Malaca” e, ao mesmo tempo, prospectar as enormes jazidas de petróleo e gás existentes no litoral da Baía de Bengala. Dessa forma, o combate entre o dragão chinês e a águia norte-americana tem – como cenário – uma ditadura que recebe o apoio chinês para a construção de estradas, hidrelétricas e instalações militares. A China reformou o porto de Rangum e arma o exército de Mianmá.
Há mortos e feridos, nesse combate entre o dragão e a águia? Sim. Os generais de Mainmá, acobertados pelos chineses, divertem-se massacrando os movimentos populares que exigem redemocratização. De quebra, imolam os monges budistas que se colocam ao lado dos clamores do povo. Estamos diante de um banho de sangue que, patrocinado pelos interesses geopolíticos chineses, se desenrola diante dos olhos complacentes da comunidade internacional.
O autor, Ney Vilela, é coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela.
Nota da editoria de opinião - Excepcionalmente hoje deixamos de publicar o artigo de Zarcillo Barbosa.