A mecanização da agricultura é algo inevitável. Cedo ou tarde todo ou praticamente todo trabalho feito por mãos humanas será substituído pelas máquinas. Essa é uma tendência natural em qualquer país do mundo. Pelas previsões feitas por sindicalistas, na região essas mudanças chegarão mais cedo do que muitos imaginam. Tanto representantes dos sindicatos patronais como dos trabalhadores são unânimes em dizer que a figura do “bóia-fria” desaparecerá da lavoura dentro de aproximadamente cinco anos. Isso significa cerca de 10 mil pessoas desempregadas, a maioria com baixa qualificação profissional, portanto com perspectivas muito pequenas de reinserção no mercado de trabalho.
Um estudo feito pelo professor José Marangoni Camargo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, mostra que, no Estado de São Paulo, o processo de modernização dos métodos de produção na lavoura foi responsável pela eliminação de 700 mil empregos nos últimos 30 anos. As constantes proibições da Justiça para a queima da cana é vista como um dos motivos que estão apressando a mecanização. Na região, a cana é a cultura que mais emprega trabalhadores rurais.
Não existem estatísticas oficiais que mostrem quantos postos de trabalho foram perdidos na região durante esse período. Mas de acordo com uma projeção feita pelo presidente do Sindicato dos Empregados Rurais de Jaú e Região, Hermínio Stefanin, nos últimos dez anos, o número de pessoas que trabalham na agricultura caiu pela metade, ou seja, cerca de 10 mil trabalhadores foram demitidos.
A outra metade só continua na lavoura porque algumas usinas de álcool foram inauguradas e outras aumentaram sua capacidade de produção. “Não fosse por isso, com certeza, o corte teria sido maior”, pondera Aparecido Bispo, secretário-geral da Federação dos Empregados Rurais do Estado de São Paulo (Feraesp). Recentemente, foram inauguradas uma usina em Iacanga e duas em Avaré. Elas ajudaram a absorver parte da mão-de-obra dispensada por outras usinas.
No entanto, Bispo prevê que a partir do próximo ano o desemprego voltará a assombrar os trabalhadores porque as empresas estão adquirindo novas máquinas e a previsão é de que elas entrem em operação já na safra de 2008.
De acordo com o presidente da Associação dos Plantadores de Cana da Região de Jaú (Associcana), Francisco Paulo Brandão, somente a Cosan, empresa que administra várias usinas na região, entre elas a de Barra Bonita, Jaú e Dois Córregos, comprou 18 máquinas para serem usadas na próxima safra. A aquisição não é maior porque o valor dessas máquinas chega perto de R$ 1 milhão e só as grandes empresas têm condições de comprá-las.
Além disso, a manutenção delas é cara. “Para o pequeno e médio produtor, o investimento não compensa porque ele vai usar a máquina durante 40 dias (tempo suficiente para realizar a colheita) e depois ela vai ficar parada o resto do ano”, comenta Brandão. A saída, segundo ele, é terceirizar a colheita ou então formar uma cooperativa para adquirir a máquina.
Mas essa limitação pode estar com os dias contados. Segundo Tomáz Caetano Rípoli, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) de Piracicaba e especialista em cana-de-açúcar, existem projetos em andamento para a criação de máquinas menores e mais baratas, o que possibilitaria a aquisição delas por pequenos e médios produtores de cana. Para ser viável para esses produtores, o equipamento não pode custar mais do que R$ 200 mil, coloca Rípoli.
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) já tem um protótipo dessa máquina. Além de custar bem menos do que as máquinas que existem no mercado atualmente, ela consegue operar em terrenos com declive superior a 15% sem tombar. Embora o projeto da Unicamp bastante avançado, a máquina não estará no mercado antes de três anos.
Segundo Rípoli, a mecanização vai modificar todo o sistema de plantação, colheita e moagem da cana. O preparo do terreno terá de ser diferente, assim como o espaçamento entre as canas, o formato do talhão (blocos de cana) e o tipo de transporte. Os caminhões terão de ter a carroceria fechada para poder transportar a cana picada pela máquina.
De acordo com Maurício Lima Verde, presidente do Sindicato Rural de Bauru, a mecanização é vantajosa para o produtor porque elimina encargos sociais e trabalhistas e torna a colheita mais rápida. Entretanto, para a maioria dos trabalhadores não há vantagem nenhuma. Apenas uma pequena parte tem motivos para comemorar. São os empregados que permanecem na empresa e passam a operar as máquinas. Trata-se de um trabalho mais qualificado, com melhores salários, mas poucas são as vagas disponíveis.