Tribuna do Leitor

E não adianta perguntar para José


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Duas jovens dirigem-se ao colégio mais próximo, não duas jovens quaisquer, duas universitárias, consideradas membros da elite cultural do país. As garotas conversavam se preferiam tomar sorvete, já que era um dia de sol quente, ou se iriam a alguma lanchonete tomar suco. Não se chegava a decisão nenhuma, afinal, é uma escolha difícil. As duas entraram na sala de Justificativa, preencheram um papel e pronto, os deveres de cidadãs brasileiras estavam cumpridos. “Nossa, foi rápido, né!”. Era 1º de outubro de 2006, exatamente um ano atrás e, só para registrar, dia do primeiro turno das eleições para representantes nas esferas estadual e federal do poder executivo e legislativo do governo brasileiro.

Novamente, dia 29 de outubro, estavam as duas no mesmo colégio. Neste dia já não pensavam em sorvete ou suco, afinal, o mês estava acabando e o fundos de reservas estavam quase no vermelho...

Meses depois escuta-se aquele discurso desbotado: “Mas esse país não tem jeito mesmo, olha que absurdo, mais um ministro suspeito de ter desviado verbas públicas”. “E o Renan que não foi cassado? É um absurdo, tudo ladrão”. E assim continua a cômoda situação na qual basta a indignação e pronto.

Poucos conseguem sair da superficialidade das notícias e construir um raciocínio ao mesmo tempo mais profundo e mais claro sobre a conjuntura nacional. Concordo que as Selics, as taxas de câmbio, as commodities (ih! entrou inglês a coisa piora) são instrumentos que em vez de esclarecer os leitores geram não-compreensão. E então o que fazer? E agora José? Ou será Antônio, ou Luiz, ou João, ou Pedro? Tantos nomes que equivalem às mil e uma desculpas como “política, futebol e religião são coisas que não se discute”.

Uma ressalva tem que ser feita. Faz pouco tempo que voltamos a viver uma democracia com direito à expressão. Por isso mesmo, por estarmos num processo de contrução de sociedade e Estado democrático, é que deveríamos discutir o que é, afinal, Estado? Qual sua função? O que é nação? Quais são nossos deveres e direitos como cidadãos dessa nação?

Ano que vem tem pleito para prefeito e vereador. Será que continuaremos indo às urnas para cumprir uma obrigação e depois nos queixarmos mais quatro anos? E nesse meio tempo, será que basta nos sentirmos revoltados, ficarmos chocados com tantas “manobras lisas” de políticos “lisos”? Bom, que pelo menos se apele para um nome mais na moda: e agora Enzo?

Raquel Faccioli

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