Nem tudo constitui motivo de lazer ou de alegria. Relatamos pesarosamente infortúnio de pessoa que nos é cara, marcada por estigma de doença incapacitante, deixando em seu físico irreparáveis seqüelas, causando danos materiais à família e consternações a amigos.
Caiçara das barrancas do rio Araguaia, conhecedor das matas, varjões, lagos, corichos e aguapés, sabe, com precisão, onde encontrar os melhores pontos de pesca e as épocas oportunas para exercê-las com sucesso...
Tantas e tantas vezes percorreu solitariamente enormes distâncias em sua estreita piroga (pequena canoa, feita de grosso tronco de árvore), negaceando as temidas onças pintadas ou à procura dos enormes pirarucus e piraíbas, encontradas somente nas águas tributárias dos rios fluentes da Amazônia.
À proa de tão modesta embarcação, descia, silenciosamente como sombra, perscrutando bulhas imperceptíveis a sentidos menos adaptados àquelas situações de sobrevivência. Seu robusto físico destacava-se no espelhado das águas mansas do Araguaia, de onde tirava o sustento de sua família.
Seu lar, embora feliz, não era farto. Dispunha apenas do suficiente e necessária a família e receber turistas amigos, que lá aportavam eventualmente, por ocasião das férias escolares.
A cor negra de sua pele contrastava-se com a brancura de seus dentes bem alinhados, sempre à mostra em largos sorrisos. De espírito manso e alegre, cativava a todos que o conheciam. Difícil imaginar houvesse naquele físico avantajado, alma tão inocente e cheia de candura. Era conhecido carinhosamente como “Chico Preto do Araguaia”.
Ensinou-me os segredos e as negaças imprescindíveis à captura dos fabulosos peixes, somente encontrados nas águas amazônicas e de seus tributários rios, como o Araguaia.
Apesar da estima que dedicávamos a “Chico Preto”, quis o destino fôssemos nós a perceber insidiosa moléstia que já carcomia seu corpo, então atlético e cheio de vida.
Sua desdita começou quando ele desceu do jipe para abrir a porteira para nós, numa das pescarias que fizemos no rio Cristalino, próximo à sede da fazenda Lago Verde, nos rincões de Mato Grosso, um ambiente selvagem e ameaçador, de exuberante riqueza selvagem.
Naquele momento, vimos assustados um estrepe cravado no pé esquerdo de “Chico Preto”, transfixando a sola de seu surrado tênis, atravessando seu pé, encharcado de sangue e ele não sabia.
“Chico Preto” parecia não sentir dor, em decorrência desse ferimento. E não atinava para as conseqüências de tão grave ferida. Alertado ele descansou seu pé sobre o pára-lama do jipe, enquanto o médico Eduardo, filho do então prefeito de Mineiros do Tietê, José Figueiredo, que nos acompanhava nessa pescaria, fazia-lhe uma bandagem de urgência.
(Continua na próxima edição)
Felisdeu Leão é pescador e contador de histórias
* Extraído do livro “Transamazônica”, no prelo.