Araçatuba - Um promotor matou três pessoas da mesma família em um acidente de trânsito na noite de anteontem em Araçatuba (530 quilômetros de SP). De acordo com a polícia, Wagner Grossi, 42 anos, estava embriagado no momento da colisão. Ele não foi preso.
O promotor trafegava pela rodovia Eliezer Magalhães, por volta das 20h40, segundo o boletim de ocorrência registrado, e, na contramão, bateu sua picape Ford Ranger em uma moto Honda Pop 100 que vinha em sentido contrário.
Os três ocupantes da moto, Alessandro Silva Santos, 27 anos, sua mulher, Alessandra Alves, 26 anos, e o filho dela, Adriel, 7 anos, morreram na hora. Segundo a polícia, testemunhas disseram que o promotor estava em alta velocidade e perdeu o controle da direção, invadindo a pista contrária e se chocando com a moto.
A reportagem não conseguiu localizá-lo. Tampouco foi possível entrar em contato com os responsáveis por sua defesa. A Polícia Civil não soube informar o nome de um advogado que represente Grossi no caso.
Na promotoria criminal de Araçatuba, onde ele atua, uma oficial da instituição, que não quis se identificar, disse que ele não estava no local naquele momento e que ela não dispunha de nenhum tipo de informação para passar à reportagem. Disse não saber qual o telefone dele.
Não consta da lista telefônica nenhum número em nome do promotor. O Ministério Público de São Paulo, por meio de sua assessoria de imprensa, não soube informar se Grossi já tem um advogado que cuide de sua defesa nem se o promotor contava com algum número de telefone pelo qual a reportagem pudesse entrar em contato. A Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, por meio de sua assessoria de imprensa, também não soube informar se havia um advogado constituído pelo promotor.
Latas de cerveja
Uma caixa térmica com latas de cerveja foi encontrada no carro do promotor. Um policial rodoviário que atendeu o caso disse que, após o acidente, Grossi continuou no local, mas estava “visivelmente embriagado e com odor etílico.”
Na delegacia, o promotor se recusou a ter o sangue recolhido para exame de dosagem alcoólica. Exame clínico feito por um médico atestou em laudo que o promotor estava com “embriaguez moderada”. O delegado seccional de Araçatuba, Ely de Faria, disse que o promotor não foi preso em flagrante em razão de ter foro privilegiado e de a lei orgânica do Ministério Público só permitir a prisão de integrantes do órgão em caso de crimes inafiançáveis. Ele classificou o acidente de “fatalidade”.
O promotor foi citado no boletim de ocorrência como causador de três homicídios culposos (sem intenção).
O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Rodrigo Pinho, afirmou que o promotor não foi preso porque o delegado entendeu que era crime culposo. “Não foi o caso (de prisão em flagrante) pelo fato de o delegado de polícia ter entendido que se trata de infração culposa, embora grave”, disse Pinho. “Fosse promotor ou não, estaria respondendo o processo em liberdade”, acrescentou.
O promotor pediu licença médica por 15 dias. Depois volta às suas atividades - o crime de homicídio culposo não justifica o afastamento, diz Pinho. Um procurador foi designado para investigar o caso. O relatório deve ser concluído até o final do ano, segundo Pinho. Só depois disso, o procurador-geral decide pela denúncia ou pelo arquivamento do caso.
O fato de o réu dirigir embriagado, dependendo do entendimento, pode levar o juiz a identificar o crime como doloso em vez de culposo. Isso pode ocorrer porque o acusado assume a culpa de maneira consciente. Ao dirigir embriagado, ele assume um risco, segundo advogados. Caso seja condenado por crime culposo, ele pode cumprir pena de 1 a 3 anos de prisão, e a embriaguez ser considerada elemento agravante.
O acusado não pode ser obrigado a fazer o teste de embriaguez porque não é obrigado a produzir prova contra si. A recusa, porém, pode levar o juiz a presumir que ele é culpado se outros elementos, como o relato de um policial ou testemunhas, levarem a essa conclusão.
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Vítimas faziam planos de se casar
Araçatuba - A faxineira Alessandra e o metalúrgico Alessandro tinham planos de se casar. Os dois, que estavam numa moto, morreram na hora após o acidente com uma picape do promotor Wagner Grossi. O filho de Alessandra, Adriel também não resistiu.
Hoje, no enterro, houve comoção e revolta dos familiares. A faxineira, que mantinha um relacionamento de 11 meses com o metalúrgico, voltava da casa de sua irmã, a também faxineira Sandra Regina Alves da Silva, 32 anos, quando se acidentou. “Ela passou o dia na minha casa e tinha acabado de sair de lá quando tudo aconteceu”, afirmou. “Justiça para quem é rico não existe. Ele deveria ter ficado preso, mas como é autoridade, nada aconteceu.”
Também irmão da vítima, o cortador de cana Wilson Alves da Silva, 28 anos, chegou a ver os corpos estirados na rodovia, logo após o acidente. Segundo ele, o promotor desceu da picape com uma lata de cerveja na mão, visivelmente embriagado, e teve de ser levado do local para não ser linchado. “A Justiça maior vem de Deus”, afirmou.
A mãe de Alessandra, a dona de casa Rosa Pereira Alves, 55 anos, disse que espera que o promotor seja punido e planeja pedir uma indenização ao Estado. “Ele brincou com a vida. É um absurdo uma autoridade fazer uma coisas dessas”, afirmou. “Espero que se faça justiça.”
O enterro foi acompanhado por dezenas de familiares e amigos do casal. Para a mãe do metalúrgico morto no acidente, a dona-de-casa Maria Aparecida da Silva Santos, 48 anos, o promotor deveria estar preso pelo que fez. “Ele foi cruel demais e foi pego em flagrante. Não é porque ele é da lei que pode fazer isso com a vida dos outros”, afirmou, enquanto se despedia do filho, o mais velho dos quatro. De acordo com ela, ele tinha planos de acabar de construir sua casa para oficializar a união com a companheira.