Saiu no JC (entrelinhas, 23/08/07): “Graziano (...) afirmou que até 2014 as bacias hidrográficas regionais vão estar cobrando pelo uso e exploração da água de superfície e subterrânea (...)”. Esse uso verbal é conhecido como “praga do telemarketing”. Se minha concepção de língua fosse purista, diria que está errado, que o jornal contribuiu para a destruição da beleza da nossa língua. Poderia arriscar o palpite de que essa construção não é do português, mas advém de traduções literais do inglês. Ora, essa é apenas uma hipótese difícil de comprovar, que algumas pessoas saíram espalhando. Mas, como não é esse o meu ponto de vista, arrisco uma interpretação para a legitimidade do uso feito pelo JC.
Suponhamos que as bacias começassem a cobrar a partir de hoje. Poderíamos dizer que: “agora, as bacias estão cobrando” para denotar uma ação que está acontecendo neste momento, enfatizando o estado de implantação da cobrança. Então, por que não posso entender a questão como algo que estará sendo implantado no futuro? Claro, tudo que é exagerado torna-se caricaturesco, como a linguagem da “família telemarketing” do Casseta & Planeta. O perigo, no entanto, é defender que esse tipo de construção está sempre errado. Ao que parece, ela não só faz parte do português, como faz parte do português culto, já que aparece em textos de jornais e revistas de qualidade. Basta inverter a lógica: quando (novas) expressões surgem em textos escritos formais, não significa, necessariamente, que os redatores erraram. É provável (embora não uma certeza) que o uso já tenha se tornado natural.
Como minha praia é o discurso, não foi tanto o telemarketês que me chamou a atenção nesse enunciado, mas o fato de o Secretário do Meio Ambiente ter afirmado que as bacias estarão cobrando. Acho que não são exatamente as bacias que lucrarão com isso, mas os órgãos arrecadadores. E isso pode afetar mais as nossas vidas do que o gerundismo, para o bem ou para o mal (depende de como o dinheiro vai ser empregado).
Sei que é chato receber um produto com defeito, ligar para o SAC e ouvir que “vão estar enviando outro” não se sabe quando. Mas o envio não deixa de ser uma ação que requer continuidade: tem que separar o produto, embalar, etc. Não creio que o telemarketing seja o maior pecado do universo. Há corrupção, arrogância, imprudência no trânsito... Gerúndio existe: no presente, no passado e no futuro. Muitas vezes, se presta a tornar uma expressão mais próxima do sentido que se quer comunicar. A sintonia total entre linguagem e pensamento é intangível, mas, quanto mais tempos verbais uma língua oferecer, mais eficazes são as tentativas de se expressar.
A construção ir+estar+gerúndio daria até um nome pomposo: gerúndio futuro composto. A revista Veja (12/9/07) escreveu que “O chamado ‘gerundismo’ não chega a ser erro gramatical, mas é um vício insuportável”. Insuportável do ponto de vista de quem? Se alguém tiver um argumento científico contra o tal gerundismo, asseguro que qualquer lingüista consideraria. Não vale dizer que é feio, deselegante ou insuportável. Nem que não existe no português, pois isso revelaria um desconhecimento básico: o de que não são os livros de gramática que criam o português; eles descrevem usos existentes da língua.
A autora, Érika de Moraes, é jornalista, mestre e doutoranda em Lingüística pelo Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp