Inútil a tentativa de uma revista nacional de grande circulação de tentar desconstruir o mito de Che Guevara e passar a idéia de um “assassino inescrupuloso e sanguinário”, por ter mandado muita gente para “El Paredón”. Quarenta anos se passaram desde o dia 9 de outubro em que cometeram o erro de matá-lo depois de aprisionado vivo no interior da Bolívia. “El cuerpo del hombre muerto” era só o que faltava para sacralizar a figura de boina tão bem posta na foto que até hoje roda o mundo em pôsteres e suvenires. O mito começou no instante em que a camponesa da aldeia, levada pela curiosidade, surpreendeu-se quando entrou no coberto que guardava o corpo de Che. Olhos abertos, sem camisa, sangue recente no peito metralhado, o guerrilheiro jazia na maca apoiada nas paredes do tanque de lavar roupas. “Parece Jesus Cristo!” A barba e os cabelos negros e compridos tornaram-se modelos para milhares de jovens contestadores no mundo capitalista.
Os militares bolivianos, treinados pelos Estados Unidos, tentaram apagar a memória do guerrilheiro cubano com o velho golpe de sumir com o corpo. Trinta anos se passaram até que os seus restos mortais fossem recuperados. Muito antes disso os camponeses já haviam erguido no local do seu sacrifício a Iglesia de San Ernesto de la Higuera. Os mitos têm uma realidade construída que nem a morte pode parar. Quanto mais o tempo passa mais se consolida a lenda, independente da opinião que tenhamos sobre seus atos políticos. Evo Morales, presidente boliviano, lançou um selo comemorativo ao aniversário da morte de Che. Na Praça da Sorbonne, em pleno coração do Quartier Latin, em Paris, estudantes fazem há dias uma grande concentração para homenagear o médico argentino que fez sua opção pelos pobres da América, após percorrer o continente numa motocicleta. Muitos deles barbados, de cabelos longos e boina negra na cabeça.
Está aí a figura de El Cid, hoje estátua de bronze em praças das pequenas e grandes cidades da Espanha. Atribui-se a ele a glória de ter conduzido tropas à vitória contra os mouros, mesmo depois de morto. Há mitos que sequer existiram. Foram frutos da imaginação dos seus autores, como D. Quixote de La Mancha, criado por Cervantes. Sem querer conspurcar os mitos, são figuras diferentes de um Renan Calheiros. Este passa à poeira da história reduzido a pó-de-traque pelas piadas fáceis que se criaram em torno da sua triste figura.
Dizem que o humor é sempre de esquerda. O humor é crítico, fustiga os costumes dos ricos e poderosos, ridiculariza as autoridades, vinga os oprimidos, reanima os pobres. Sabota os de cima e alegra os de baixo. Muito mais eficiente e corrosivo do que movimento guerrilheiro. Pode-se ter a impressão de que o humor é de esquerda. Se Che fosse humorista, sem perder a ternura, não teria morrido tão cedo.
De fato existe também no humor uma vertente aristocrática, elitista, a que está presente nas piadas sobre a loura burra, por exemplo. E também em alguns escritos do ex-ministro Roberto Campos e do ex-governador Carlos Lacerda. Nada se compara a um Machado de Assis. O bruxo escreveu romances – como observou Roberto Schwarz - que desmistificavam os padrões de conduta e os pseudo valores da burguesia, com muito humor. Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro são peças de um ceticismo subversivo. Acho que existiu muito de Machado de Assis em Che Guevara. Ambos não se acumpliciavam com os privilegiados ou aceitavam passivamente a extrema desigualdade social e o destino. Machado se insurgia contra a insensibilidade, o egoísmo, a mesquinharia, a mentira, a patifaria, a mistificação. Era cético porque não se deixava convencer pelas promessas de políticos oportunistas, e porque assumia suas desconfianças. Seu ceticismo não ficava no travo da amargura, passava pelo sorriso e se depurava na literatura.
Nem sei porque comecei com Che Guevara e acabei no humor cáustico de Machado de Assis. Explico-me com uma piada do boêmio Emílio de Menezes, trocadilhista que infernava a vida dos políticos no início do século 19. Na época existia uma ação organizada dos positivistas (o apostolado), seguidores de Augusto Comte. Encontrou-se, por acaso na rua, com o positivista Teixeira Mendes e lhe perguntou para onde este ia: “Para o apostolado”, respondeu. E Emílio, rápido, informou: “E eu vou para o lado oposto”.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC