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A impotência do cidadão


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Você quer, você pode. A vantagem do regime democrático é que se o povo não estiver satisfeito com o governo, pode mudar na próxima eleição. São todas frases de efeito, porque na realidade você nem pode tudo, como o povo não consegue mudar os governantes e quando consegue, geralmente não é pra melhor. Não é à toa que muitos, desencantados com o país ou com a cidade, sentindo um misto de indignação e conformismo, dizem que se pudessem iriam embora. E alguns chegam a ir mesmo. Outros dizem que não vão votar mais ou que vão anular o voto. São decepções que se repetem o tempo todo e o cidadão amarga os dissabores da impotência de nada poder fazer.

Nos regimes ditatoriais, de direita ou de esquerda, o cidadão inconformado tem que aceitar tudo de boca fechada. Qualquer manifestação é massacrada pelo governo, como no caso de Mianmar, antiga Birmânia, ou nem pode deixar o país, como no caso de Cuba. É como se o país fosse um campo de concentração. O povo sofre, passa fome, e os empoleirados no governo levam vida de abastança. No caso recente de Mianmar, a televisão mostrou a festa de casamento da filha do comandante com um oficial, com esbanjamento de riqueza, em escarnecedor contraste com a miséria do povo. Esse foi o estopim do levante do povo liderado pelos monges.

No nosso caso, e ainda dizemos graças a Deus, o regime é democrático, podemos dizer o que queremos, os manifestantes Sem Terra invadem prédios públicos e propriedades particulares e são tratados com amabilidade, o pátio do Congresso pode ser palco de manifestações contra o governo, enfim, somos livres, podemos dar vazão aos nossos sentimentos, mas do que vale, se aqueles que estão no poder olham tudo com indiferença? Chega-se a época das eleições e vem a esperança de trocar o joio pelo trigo, mas o que acontece? Acaba-se trocando o joio pelo joio. É desolador verificar as listas de candidatos com nomes muito conhecidos por desmandos e corrupção, que deveriam ser apagados da vida pública, falando de ética, fazendo promessas de realizações e de melhoria das condições de vida. São ocupantes ou ex-ocupantes de cargo de presidente, senador, deputado, ministro, governador, prefeito e vereador, cassados por corrupção e condenados em processos, que voltam a se candidatar e são eleitos. Alguns não chegam a ser condenados porque renunciam antes da abertura do processo, o que é uma prova inconteste de que tinham culpa e seriam condenados. Mas voltam e são aplaudidos e elogiados como se fossem inocentes e vítimas de perseguição.

O cidadão vê tudo isso escandalizado, revoltado ou conformado porque é impotente, nada pode fazer. A maioria quer assim. A maioria decide. Quando houve mudança, os mais pobres, vendo que a situação piorou com os novos governantes, acham que é melhor voltar ao passado. Aventureiros e contestadores pegam carona na onda de insatisfação e se candidatam sem nenhuma possibilidade de se eleger e com isso atrapalham possíveis candidatos decentes, favorecendo os corruptos. Talvez uma das maneiras de obter alguma eficácia seria o escracho, como o deboche do caso Renan Calheiros, no final da última novela da Globo.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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