Eles já saíram às ruas para lutar contra o regime ditatorial imposto pelos militares e transformaram-se nos “caras-pintadas” cobrando o impeachment do ex-presidente da República, Fernando Collor de Mello. Mas muitos jovens de hoje parecem estar distantes de preocupações políticas e ideológicas, que chegaram até a batizar gerações passadas, e se mostram desinteressados de exercer seu direito a voto. Prova disso é a pesquisa divulgada recentemente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que apontou que, entre outubro de 1992 e junho de 2007, o número de eleitores entre 16 e 17 anos caiu quase à metade no País, tendência igualmente verificada em Bauru.
Por isso, o TSE iniciou, na semana passada, uma campanha dirigida aos jovens dessa faixa etária estimulando-os a tirar seus títulos de eleitor e participar das eleições de 2008, aumentando o número de eleitores que, pela atual legislação nacional, ainda não são obrigados a participarem dos pleitos. A veiculação da campanha está prevista para ocorrer no período de 15 de outubro a 15 de dezembro deste ano.
Segundo dados estatísticos da Justiça Eleitoral, em outubro de 1992, o número de eleitores com 17 anos era de 1.822.639 (2,02%) e de 1.398.841 (1,55%) com 16 anos, chegando a 3,57% do eleitorado. Passados 15 anos, a situação é bem diferente. Em junho de 2007, o número de eleitores com 17 anos era de 1.584.199 (1,26%) e de 507.939 (0,4%) com 16 anos, atingindo um total de 1,66%.
Bauru também não foge a essa realidade. Em outubro de 1992, de um universo de cerca de 150 mil eleitores, apenas 757 tinham 16 anos, número que caiu cerca de 58% já em outubro de 1997, quando a cidade, mesmo tendo o seu número total de eleitores elevado para cerca de 180 mil pessoas, contava com 320 votantes na mesma faixa etária.
E, mesmo após dez anos, a quantidade de eleitores com 16 anos variou timidamente no Município. Isso porque, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo, a cidade possuía, em setembro de 2007, 328 eleitores nessa idade, apenas oito a mais do que em 1997 e mesmo diante do eleitorado total em Bauru ter crescido atualmente para 227.522 pessoas.
Mas o problema não é novo e já vem sendo observado no Brasil há décadas. Em reportagem publicada na revista IstoÉ, em abril de 1998, o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, que coordenou uma pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (Unesco), em 1997, com 400 jovens brasileiros de 14 a 20 anos, afirmou que o desinteresse do jovem por ter um título de eleitor e votar é apenas a ponta de um iceberg. “Essa é a juventude da queda dos mitos históricos, do fim das grandes utopias sociais, do individualismo. O que importa é competir. E não há culpa nisso. É um momento histórico de transição, de falta de projetos”, frisou Waiselfisz.
Na ocasião, os números do estudo da Unesco já demonstravam a falta de interesse dos jovens pela política. Apenas 0,5% acreditavam no Congresso Nacional, 63,3% nunca haviam participado de manifestações ou passeatas e só 0,2% tinham confiança no governo, a mesma proporção dos que acreditavam na polícia.
A pesquisa revelou, ainda, que aos 16 e 17 anos, às vésperas da definição sobre o que pretendem fazer na vida adulta, 97,8% dos jovens estavam mais preocupados com seu futuro profissional e ser feliz e que apenas 2,2% dos adolescentes manifestaram preocupação com os destinos do País.
Ainda na mesma matéria, o cientista político Marcos Coimbra, diretor do instituto de pesquisa Vox Populi, lançou uma preocupação. “Como será daqui a alguns anos, quando chegar a vez dessa juventude assumir posições e exercer cargos políticos?”, questionou Coimbra.
A cientista política Maria das Graças Rua, pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), em reportagem do jornal Correio Brasiliense de abril de 2002, atribuiu a situação a dois motivos. “As eleições são momentos de pico do debate político e, como aqui elas acontecem em intervalos de tempo maiores, não despertam tanto interesse. Mas os jovens também dizem que não gostam de políticos porque confundem política com politicagem”, considerou Rua.
Já os jovens, a exemplo de grande parcela da população nacional, mostram-se desencantados com as mazelas da política e o comportamento dos políticos, principais argumentos utilizados para justificar o desestímulo pelo assunto.