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Crise aérea atrapalha a ‘decolagem’

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 6 min

A crise aérea desencadeada pelo acidente com o avião da TAM no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, no último dia 17 de julho, não representou grandes perdas para as companhias que operam no Aeroporto Estadual Moussa Nakhl Tobias, entre Bauru e Arealva. Mas pode ter impedido uma procura maior na venda de passagens.

Na opinião do secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Walace Sampaio, o medo que tomou conta da população que utiliza os aviões como meio de transporte se refletiu também em Bauru e pode ter brecado um possível crescimento do setor na cidade.

“O aeroporto novo foi inaugurado em outubro do ano passado, mas começou a funcionar efetivamente em fevereiro (quando a Pantanal transferiu seus vôos para lá). Em seguida, tivemos todos esses problemas com a aviação. Depois disso, ninguém falou em criar novas linhas. Pelo contrário. Isso atrasou o processo de crescimento, que deverá ser retomado somente quando a crise for superada”, diz Walace.

Na avaliação do secretário, novas empresas devem começar a operar em Bauru e o número de vôos fretados para turismo deve crescer. “É natural que haja um aumento no fluxo de passageiros não só de Bauru, mas também da região”, aposta. Segundo ele, o vôo de turismo é um dos mais promissores porque Bauru é uma das melhores opções num raio de aproximadamente 200 quilômetros. “Estamos falando de uma região com cerca de 2 milhões de pessoas”, ressalta. As opções mais próximas, fora Bauru, são Ribeirão Preto e Campinas.

De acordo com o diretor-presidente da Air Minas Linhas Aéreas, Urubatan Helou, a companhia não foi diretamente atingida pela crise aérea porque seus vôos são feitos a partir do Aeroporto de Cumbica, e não de Congonhas.

Segundo ele, o balanço desse um ano de operação em Bauru não é nada favorável. “Nossa performance nesse primeiro ano de operações está abaixo da expectativa. Não estamos satisfeitos com a demanda de passageiros que temos transportado pela companhia, que na média gira em torno de oito passageiros ao dia em Bauru”, revela. De acordo com ele, não há previsão de investimento em novas linhas para este ano.

A reportagem também procurou as outras duas companhias que operam em Bauru, Pantanal e Ocean Air, mas não houve resposta aos e-mails enviados até sexta-feira à noite.

Para o economista Reinaldo Cafeo, a crise aérea pode até beneficiar o aeroporto Bauru/Arealva. Ele lembra que Congonhas está operando com restrições. Depois que uma parte dos vôos foram transferidos para Cumbica, a capacidade deste também chegou próximo do esgotamento. O Aeroporto de Viracopos, em Campinas, apresentou-se então como a alternativa mais viável ao transporte de passageiros. Mas como parte do transporte de cargas também foi desviada para lá, o aeroporto também teria chegado ao seu limite.

“Com isso, terão de buscar no Interior uma outra alternativa. Na minha concepção, Bauru se apresenta, neste momento, como uma boa opção, da mesma forma como Campinas se apresentou na década de 70 para desafogar o tráfego aéreo de São Paulo”, argumenta.

Segundo Cafeo, o aeroporto de Ribeirão Preto seria o principal concorrente de Bauru. No entanto, para deixá-lo em condições adequadas para receber uma cota extra de passageiros e cargas, ele teria de ser ampliado. “Além de necessitar de um investimento dez vezes maior, (a ampliação do aeroporto de Ribeirão) teria impacto ambiental muito pesado e cerca de 1 mil famílias que moram ao redor do aeroporto terão de ser removidas”, destaca ele, lembrando que em Bauru os investimentos necessários seriam bem menores.

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Negócios engatilhados

Desde a inauguração do Aeroporto Estadual Moussa Nakhl Tobias, há um ano, apenas um estabelecimento surgiu para atender a demanda de passageiros que circula diariamente pelo local. Trata-se de uma churrascaria que serve pratos frios e quentes, além do churrasco, no almoço e no jantar.

Pelo menos mais dois negócios ao redor do aeroporto estão engatilhados, esperando apenas alguns ajustes para começar a funcionar. Um deles é um restaurante, para concorrer com a churrascaria, e o outro um minilaticínio para beneficiamento de leite e produção de queijo. Ambos pertencem a uma mesma pessoa, o produtor rural Celso Carneiro da Silva, 58 anos, cuja propriedade fica a poucos metros do aeroporto.

O restaurante está praticamente pronto. Falta apenas uma linha telefônica para a transmissão de dados dos cartões de crédito. Silva quer aproveitar o restaurante para impulsionar as vendas de seu outro negócio, o minilaticínio. Todos os dias, ele recolhe de 400 a 500 litros de leite. Além de ajudar na produção do queijo, o minilaticínio servirá para pasteurizar e embalar o leite, ou seja, o produto sai de lá pronto para o consumo.

“Eu já tinha planos de fazer isso (minilaticínio) e fiquei muito feliz quando soube que iriam construir um aeroporto aqui perto. Com certeza, ele vai ajudar a impulsionar o negócio”, aposta. A respeito da valorização das suas terras, Silva diz que não está preocupado com isso, porque não tem intenção de vendê-las.

Yoshiteru Adachi, outro produtor rural atingido pela construção do novo aeroporto, está feliz da vida. “Até agora, o aeroporto só trouxe benefícios”, afirma. Além da valorização do terreno, em torno de 300%, ele ganhou também com a pavimentação da estrada vicinal que liga a rodovia Cezário José de Castilho (Bauru/Iacanga) ao aeroporto. Com o asfalto chegou uma linha de ônibus urbano, o que facilitou o transporte dos funcionários da fazenda. Adachi lembra que antes, os patrões tinham de fretar um ônibus para fazer esse trabalho.

Cerca de 70% da propriedade é ocupada por pastagem. O restante é dividida entre plantações de abacate, manga, seringueiras e eucaliptos. Adachi teve 33 alqueires desapropriados pelo governo para a construção do aeroporto. A dívida será paga em 5 anos, em forma de precatórios.

Para o presidente do Sindicato Rural de Bauru, Maurício Lima Verde, os reflexos positivos da instalação do aeroporto só serão sentidos com mais intensidade pelos proprietários rurais daquela região a médio e longo prazo. “Ainda é cedo para um retorno econômico”, afirma. Segundo ele, proprietários viram suas terras valorizarem tremendamente de uma hora para outra, mas os ganhos poderão ser ainda maiores com o passar do tempo, quando o aeroporto se aproximar de sua capacidade total.

Ele lembra que o Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, região metropolitana de Belo Horizonte (MG), passou cerca de sete anos “às moscas” e hoje é um local muito movimentado.

Nem mesmo as restrições impostas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para o plantio de algumas culturas num raio de aproximadamente oito quilômetros do aeroporto incomoda os produtores rurais de Bauru e Arealva, segundo Lima Verde. Segundo ele, a terra naquela região não é boa para a agricultura. Por isso, a pecuária predomina. “A limitação não vai prejudicar em nada”, afirma. Para evitar a presença de aves próximas ao aeroporto, é proibido o cultivo de algumas culturas, como milho, e a construção de abatedouros, que têm o poder de atrair urubus, um dos maiores inimigos dos pilotos.

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