A Força Tática (o ex-Tático 4), tropa de elite da Polícia Militar de Bauru, está descaracterizada, “ferida”, segundo apura o JC desde maio quando, por uma questionada decisão do comando regional, foram substituídos 27 dos mais experientes e treinados policiais de choque, aqueles que têm o enfrentamento do mundo cão no DNA, o sangue frio de quem pode tangenciar (ou encontrar) a morte a qualquer momento e conhecedores de quem é quem na marginalidade.
Os oficiais negam a descaracterização, mas admitem que houve um “esfriamento” das ações dessa unidade. Muitos policiais e ex-policiais ouvidos pelo JC não têm dúvidas: Bauru está sem soldados como aqueles do Bope carioca, que se tornou vitrine e discussão nacional com a exibição do filme de mesmo nome.
O Batalhão de Operações Especiais (Bope), a tropa de elite da Polícia Militar do Estado do Rio, suscita respeito (e polêmica também). É considerado por muitos especialistas a melhor polícia de operações especiais do mundo. Inspirou o filme “Tropa de Elite”, de José Padilha, que vendeu um milhão de cópias de DVD pirata antes mesmo de chegar às salas de cinema do Rio e São Paulo, no último dia 5.
O Bope, porém, não é a única tropa de elite conhecida no País. No Estado de São Paulo, da Polícia Militar, entre as existentes vale citar a Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), criada na década de 70 para combater a guerrilha urbana e que hoje age nas regiões mais violentas da Capital e Grande São Paulo; o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate); o Comando de Operações Especiais (COE) e a Força Tática.
Bauru tem a Patrulha de Força Tática, ou simplesmente Tático, identificável nas ruas pelas Blazer chumbo, com homens fortes, de colete à prova de bala e muito bem armados. Os policiais do Tático recebem treinamento especial para ações de prevenção setorizada, com repressão ao crime organizado ou em locais com alto índice de crimes violentos, ocorrências de vulto, eventos esportivos e culturais de importância e controle de tumultos. O patrulhamento tático motorizado é executado com viatura de maior porte e armamento mais pesado que os demais. Os policiais, altamente treinados, utilizam a pistola ponto 40, arma calibre 12, puma 38, metralhadora, tonfa (parecida com o cassetete) e o gás pimenta. Os demais policiais utilizam a pistola ponto 40 ou o puma 38, a tonfa e o gás pimenta.
Descaracterização
A tropa de elite de Bauru, porém, estaria desmotivada e é comum ouvir entre os policiais da corporação que já não age mais da mesma maneira vigorosa de maio deste ano para cá. O Tático passou por uma reformulação que ainda hoje é questionada pelos 27 policiais que foram remanejados para outros postos. Há questionamentos também em outros setores da tropa. As mudanças foram determinadas pelo então comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPMI), com sede em Bauru, o tenente-coronel Pedro Batista Lamoso, e provocadas pela morte do mecânico Jorge Luiz Lourenço, 22 anos, no início de abril, durante perseguição policial. Lourenço foi atingido por um tiro na cabeça.
Na época em que desencadeou as mudanças, Lamoso disse que elas apenas foram antecipadas pela morte de Lourenço e que 80 policiais do Tático seriam substituídos de forma gradativa, o que não ocorreu até hoje. O objetivo, afirmou Lamoso, era adequar a Força Tática, que faz parte da 7.ª Companhia da PM, a uma nova filosofia, com uma maior interação com a comunidade.
A justificativa não convenceu – e ainda não convence. Por motivos óbvios, as pessoas ouvidas ao longo dos últimos meses não podem ser identificadas. Seis meses após o “desmanche”, as fontes desta matéria ainda mantém convicta a idéia de que o momento escolhido para as mudanças, mais do que a morte do mecânico Lourenço, teve a ver com o fato de a ação dificultar a promoção do tenente-coronel Lamoso a coronel e que elas fragilizam o combate ao crime, já que, com a mudança de postura, os policiais se recolheram por não se sentirem preparados para uma ação mais ostensiva. “As mudanças ocorreram para não prejudicar a carreira dele (Pedro Batista Lamoso”, reafirmou na semana passada um policial, que prefere não ser identificado.
E mais: os policiais questionam até que ponto as mudanças provocadas no perfil do Tático, criado para ser “uma equipe que resolve num momento de confronto”, seja ele em qualquer operação policial, não prejudica a população e até a corporação, de modo geral, já que todos os remanejados passaram por treinamento ostensivo especial com equipes da Rota e do Gate, o que não ocorreu com os que assumiram seus lugares, entre outras instruções.
A maioria dos novos integrantes do Tático, escolhidos pelo comando, são bons policiais, mas não teriam experiência suficiente nem treinamento em ações pesadas, e muitos estariam desenvolvendo serviços administrativos quando foram convocados para a nova função.