Polícia

Treinamento na teoria, mas sem a prática

Giselle Hilário
| Tempo de leitura: 4 min

Há seis meses, quando questionado sobre o tema, o tenente-coronel Pedro Lamoso foi enfático em dizer que a relação com sua promoção era infundada, já que ela depende de vários fatores, entre eles vagas e habilitação para o cargo. Lamoso foi promovido a coronel no fim de maio, um mês após as mudanças, e assumiu o Comando de Policiamento de Área Metropolitana-11 (CPA/M11), em São Paulo.

Sobre a falta de treinamento especializado dos novos integrantes do Tático, Lamoso afirmou, na época, que as mudanças não enfraqueceriam a companhia, já que todos os policiais seriam treinados para desempenhar as novas funções. Isso, segundo os policiais, não ocorreu de forma ostensiva. O treinamento a que se referiu Lamoso hoje é feito numa sala, com um oficial mostrando na teoria o que deve ser realizado na prática.

As mudanças provocadas no Tático, a transferência dos 27 policiais treinados e especializados para atuar na tropa de elite da cidade, além da “alteração na filosofia” do policiamento, foi um baque até mesmo para a corporação e ainda provoca mal-estar. O tema é tratado com bastante cautela e há até quem evite falar sobre o assunto, quando questionado.

A maioria dos 27 policiais transferidos para outras funções dentro da polícia estava no Tático desde a fundação em Bauru, em maio de 1991, por isso mesmo com muitas “horas de vôo” na linha de tiro. Todos passaram por treinamento ostensivo de mais de 30 dias seguidos, para lidar com bombas, armamento, choque, abordagem e legislação. Além disso, muitos fizeram cursos extras no Brasil e no Exterior, pagando, às vezes, do próprio bolso. Antes de ir para as ruas, em 91, os integrantes do Tático ficaram aquartelados para que o treinamento fosse intensivo. Além disso, após o início das operações nas ruas, todos os meses eram feitos treinamentos envolvendo policiais da região.

Ex-intregrantes do Tático argumentam que seus substitutos não passaram por treinamento especializado. E seis meses após as mudanças, ainda não foi realizado nenhum treinamento intensivo. Eles não questionam a competência dos colegas para a ação, mas dizem que certamente não terão a segurança e a frieza necessárias para agir durante um confronto. “Teoria é muito diferente da prática”, afirma um policial. “Uma ação mais pesada, hoje, terá de ocorrer meio que na improvisação.”

Os policiais também questionam a brusca diminuição de operações envolvendo o Tático, como prisão de traficantes, estouro de boca-de-fumo, entre outras, e o crescente número de furtos e roubos na cidade. Eles citam estatísticas divulgadas nesta semana pelo capitão João da Costa Duarte, comandante da 1.ª Companhia da PM. Após verificar, no decorrer do ano de 2006, redução significativa na incidência de roubos e furtos de veículos em Bauru e nas 18 cidades que fazem parte do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4.º BPMI), os números se inverteram e houve uma explosão de casos nos últimos três meses. Em agosto deste ano, foram registradas 149 ocorrências pela polícia, contra 106 no mesmo período de 2006. Dados da própria corporação indicam aumento de 41% na incidência das duas modalidades de crime. Para eles, isso é reflexo direto da inexperiência dos policiais e da falta de conhecimento de quem é quem no mundo do crime em Bauru.

Até maio, quem comandava uma equipe do Tático tinha a obrigação de saber quem era quem, o que fazia, quem eram a família e os amigos dele, que lugares freqüentava. Hoje, esse trabalho é realizado mais efetivamente pela inteligência (polícia reservada da PM).

“Na época, algumas pessoas nos disseram que não queríamos sair do Tático porque dava status. Mas não é nada disso. Para nós, era como um sacerdócio. Muitos de nós têm o símbolo do Tático tatuado no peito. Nós fomos escolhidos por sermos voluntários, não por termos sido convocados, como ocorreu com nossos substitutos. E hoje, dói ver que a filosofia do Tático é fazer estacionamento estratégico (ficar com a viatura estacionada em algum ponto de visibilidade) para dar sensação de segurança à sociedade, patrulhar festa de peão ou participar de apresentação do canil”, afirmou.

Os ex-policiais do Tático garantem que os atuais também não estão satisfeitos nos lugares onde estão. Isso teria ocorrido porque a primeira filosofia para ser integrante do Tático, o voluntariado, foi quebrada. Os atuais policiais foram convocados. Não tiveram chance de escolha. “Para ser membro de uma tropa de elite, que não tem hora para trabalhar e precisa dedicar-se exclusivamente à polícia, tem que querer estar ali. E não é o que ocorre hoje.”

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