Pode-se avaliar um quadro de diversas maneiras, pois cada um o vê a seu modo. Comentários vão desde aquele sensível que vê imagens lúdicas que remetem ao interior da alma até aqueles mais pragmáticos que nada mais vêem a não ser uma série de cores dispostas sobre uma tela de tecido com moldura de madeira, pendurada torta sobre a parede. Tem de tudo.
Com o design dos carros vale o mesmo critério. Tem gente que adora, que compra por impulso baseado apenas na forma, enquanto outros odeiam justamente pela forma esquisita mas não vêem suas qualidades. Tem gente que nem liga para o aspecto, ou o releva em detrimento da praticidade, preço ou qualquer outro motivo. Preferem o lado prático da coisa, (espaço interno, versatilidade, capacidade de carga, preço etc.). Aí é que entra o talento do designer automobilístico. Não confundir designer com design, erro muito comum e grosseiro hoje em dia. Designer é o profissional que desenvolve a forma do produto, enquanto que design é o conceito, a forma propriamente dita do projeto. Já vi gente dizendo que “gostei muito do designer daquele carro”, e fiquei em dúvida se estava se referindo ao projeto ou ao projetista...
O que torna um projeto automotivo vendável e vencedor é uma somatória de características positivas, que agradem à maioria. Isto é simples de entender, não existe um produto que simplesmente agrade a todos. O design leva em consideração os clientes potenciais e o nicho de mercado que ele preencherá, sendo estes dados obtidos através de exaustivas pesquisas de marketing. Levantado o mercado, o novo carro deverá atender suas expectativas no tocante ao transporte de filhos, capacidade de carga, desempenho, aerodinâmica, motorização, capacidade de frenagem e de fazer curvas, estabilidade e por aí vai. Claro que neste estágio do projeto tanto engenharia quanto o design deverão trabalhar juntos, complementarmente.
Um caro familiar deve ser prático, espaçoso e barato, com bastante porta-trecos espalhados por todo canto. Um carro esportivo deverá ter um motorzão, rodonas e cara de bravo. Um veículo de serviços deve ser forte, resistente, prático, econômico e dar pouca manutenção. Portanto, vemos que um único veículo não preenche todos os requisitos. Um empresário compra um veículo para sua empresa como uma máquina que deverá realizar uma função determinada, usando conceitos práticos e realistas, enquanto um mortal como nós compra um carro pessoal mais pelo desejo de possuí-lo, motivado pela paixão e não pela razão.
Um profissional do volante convive mais tempo com o seu veículo do que com sua própria família, por isso tem que sentir prazer nisso, até mesmo orgulho. A ergonomia é fundamental para preservar sua saúde e bem estar, e estes fatores também influenciam na escolha do produto, e os designers sabem disso e dão uma atenção adequada no projeto. Mas um design meramente funcional não empolga. O mesmo se dá para um projeto muito lindo, porém pouco prático. Saber dosar estas qualidades é fundamental. Idéias criativas mostram o talento do designer em propor novas soluções para as mesmas situações corriqueiras, como abertura de portas, disposição dos instrumentos no painel, posicionamento dos bancos, iluminação interna e externa, mas o verdadeiro designer cria novas situações não comuns, como tetos de vidro, eixos retráteis, faróis direcionais, porta malas multifuncionais, enfim coisas que dão uma personalidade forte ao projeto. Costumo dizer que um bom designer cria produtos com formas bonitas e diferentes, enquanto que um ótimo designer os faz bonitos, criativos e funcionais. Já um excelente designer cria formas bonitas, criativas, funcionais e que podem ser produzidas em série a um custo razoável. Esta é a grande diferença entre os profissionais, como reconhecido pelo mercado de trabalho.
A contribuição do design automobilístico foi muito forte no aumento de vendas e conseqüentemente no desenvolvimento da produção seriada. Um carro pode ser muito forte, econômico e espaçoso, mas se for bonito e prático com certeza venderá mais.
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.