Diz a lenda que cada vez que é contado um “causo” de aparição do saci, nasce uma nova criatura de uma perna só, gorro vermelho na cabeça e cachimbo na boca. Personagem do folclore brasileiro, o saci andava esquecido. Depois da fase áurea com os livros de Monteiro Lobato e o Sítio do Picapau Amarelo, o perneta chegou próximo da extinção, ameaçado por gnomos, duendes, fadas, bruxas e outras criaturas estrangeiras.
Foi diante desse cenário que, há cerca de 20 anos, surgiu a Associação Nacional dos Criadores de Saci (ANCS), em Botucatu. Foi o que bastou para trazer de volta à vida um dos personagens mais caricatos da literatura nacional. Desde então, cidades como São Luís do Paraitinga, São José do Rio Preto, São Paulo e Vitória (ES) instituíram o Dia do Saci, como uma maneira de manter viva a figura do perneta safado no imaginário popular.
Por iniciativa do deputado estadual Padre Afonso Lobato (PV), a comemoração passou a integrar também o calendário turístico do Estado. O deputado federal Aldo Rebelo (PC do B) tentou fazer o mesmo em nível nacional, mas o projeto de lei foi arquivado no início deste ano por decurso de prazo.
Sem perder tempo, a Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci) está colhendo assinaturas, por meio de um abaixo-assinado na Internet, para entregar ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, solicitando que seja instituído em nível nacional o “Dia do Saci”. A data escolhida para a festa em todos os níveis (municipal, estadual e federal) foi o dia 31 de outubro, próxima terça-feira. Será nesse dia a entrega do abaixo-assinado organizado pela Sosaci ao ministro Gilberto Gil.
“Contamos com o ministro Gil como um aliado importantíssimo em nossa cruzada pela valorização da cultura nacional”, afirma Vladimir Sacchetta, jornalista, produtor cultural e um dos fundadores da Sosaci, em entrevista à Comunicação Social do Ministério da Cultura.
Festivais
Em Botucatu, surgiu mais uma iniciativa pioneira: o Festival Nacional do Saci, que neste ano completou sua sétima edição seguida. Durante uma semana, sempre em agosto, são feitas várias apresentações musicais, teatrais e literárias voltadas ao folclore brasileiro.
A idéia, segundo o ex-secretário municipal de Cultura, Wilson Nakamoto, que criou o festival, era aproximar o folclore das pessoas, especialmente das crianças. No rastro do festival, ele lembra que começaram a surgir muitas outras atividades e artesanato voltado ao resgate cultural do folclore.
De acordo com ele, no início houve uma certa resistência de alguns setores da sociedade, principalmente da igreja, porque entendiam que o saci estava associado a uma imagem negativa, de maldade, que não deveria ser celebrada. As críticas, no entanto, não conseguiram acabar com o festival, que é realizado até hoje.
E outros foram sendo criados. Em São Luís do Paraitinga tem o Grito do Saci, evento realizado em setembro com os mesmos propósitos de resgate cultural.
Toda essa mobilização chamou a atenção da mídia e as pessoas começaram a aparecer na televisão, nos jornais, nas emissoras de rádio, nas revistas, na Internet e nas escolas para falar da iniciativa e, evidentemente, do saci. A exposição colocou novamente o personagem em evidência e fez crescer a população de saci. Afinal de contas, como diz a lenda, cada vez que se fala do perneta, surge uma nova criatura.
Para o presidente da ANCS, José Osvaldo Guimarães, o resgate da figura do saci foi uma conquista que merece ser intensamente comemorada, mas a festa poderia ser ainda mais completa. Na opinião dele, a escolha do dia 31 de outubro como data para lembrar do saci não é de toda benéfica. Isso porque no mesmo dia celebra-se o halloween, o Dia das Bruxas, tradicional festa americana.
A escolha da data foi proposital. A intenção é combater uma comemoração de origem estrangeira que vinha crescendo ano a ano no Brasil, colocando no mesmo dia a celebração de um personagem essencialmente nacional. Para Guimarães, com isso, toda vez que falarem do saci vão lembrar também do halloween. “O saci vai servir de alavanca para se falar do halloween”, observa. “Temos que gastar energia preservando o nosso personagem e não destruindo os personagens dos outros”, critica o presidente da ANCS. Na opinião dele, seria mais apropriado escolher um dia de agosto, instituído como o mês do folclore.
Mas mais importante do que discutir data, segundo Guimarães, é fazer com que a população de saci continue crescendo nas matas e no imaginário da população.