Os jornais publicaram com algum estardalhaço e os sítios de notícias repercutiram na internet como uma grande novidade que “a China tomou um bilhão de dólares de exportações brasileiras no mercado americano no ano passado”. O problema com o nosso pessoal é que poucas pessoas fazem as contas direito e por isso não chegam a perceber a irrelevância dessa informação, de tão atrasada que é. A China vem ocupando os mercados de onde os exportadores brasileiros de produtos industriais foram expulsos não por alguma ação externa ou retaliação comercial dos grandes importadores, mas por conta dos congelamentos do câmbio que repetimos desde 1986 até hoje. Nesses vinte e um anos o Brasil praticou políticas cambiais devastadoras contra os setores industriais que exportavam para os Estados Unidos e demais países desenvolvidos. Nossos governos não entenderam a evolução do mundo e retiraram o suporte ao sofisticadíssimo parque industrial que estava se desenvolvendo no Brasil. Já o governo chinês entendeu que o mercado americano era de produtos industrializados e investiu nessa direção das manufaturas para exportação, aprendendo a usar mecanismos que o Brasil utilizou até 1984/85.
A China não foi atrás de regimes de preferências junto às potências comerciais, ela simplesmente fez uma política cambial inteligente, foi buscando os caminhos que nós deixamos abertos e rejeita tranqüilamente as pressões para valorizar o yuan. Enquanto ela caminhava, nós adormecemos: em 1984, China e Brasil eram responsáveis por uma parcela idêntica das exportações mundiais, 1,1% para cada uma, algo como 22 bilhões de dólares anuais e a Coréia tinha um pouquinho mais, exportava 23 bilhões de dólares. O Brasil tinha naquela época uma política de câmbio flexível e um programa exportador industrial que se mantinha há 15 anos. Em 1986, o plano Cruzado congelou o câmbio e o Brasil fez uma grande asneira, declarando a “moratória soberana” e a partir daí só fizemos besteira em matéria de câmbio: veio o Collor e congelou o câmbio duas vezes e, na seqüência do plano Real, o governo FHC congelou o câmbio por 4 anos até 1999. Nesse período abandonamos toda a política de estímulo às exportações industriais, deixando morrer inclusive o BEFIEX. Enquanto o país acumulava um déficit de 186 bilhões de dólares em conta corrente, a indústria brasileira deixou de faturar outro tanto com a perdas dos mercados de exportação.
Ninguém obrigou o Brasil a deixar o caminho livre para as exportações industriais de que se aproveitaram novos competidores, chineses principalmente. Nós mesmos abandonamos o campo, demonstrando uma enorme imprevidência. A China fez lá o seu Befiex, multiplicou as Zonas de Livre Comércio direcionadas para a produção e exportação de bens industriais e foi a luta visando preferencialmente o grande mercado americano. Hoje exporta 10 vezes mais do que nós para aquele mercado e suas exportações anuais representam 9% das exportações globais; a Coréia tem 3% e o Brasil, depois de todo o esforço dos últimos cinco anos, basicamente centrado nos produtos da agricultura e mineração, voltou ao ponto de partida de 20 anos atrás : temos os mesmos 1,1% das exportações mundiais.
Parece que estamos sendo despertados agora dessa triste realidade, como sugere o desafio do Ministério do Desenvolvimento Industrial de remontar uma política de exportações industriais para ampliar em 10% pelo menos, a médio prazo, nossa participação no comércio mundial.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento