Cultura

Sobre mundos: Miopia intelectual

Por Padre Beto* | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Na balada, ele avistou o amigo Bruno e foi inevitável percebê-la ao seu lado. Ela estava sensualmente maravilhosa acompanhando o ritmo da música como se estivesse totalmente em casa. Ele aproximou-se de Bruno, mas já com a intenção de conhecê-la melhor. Assim que chegou, Bruno os apresentou e logo ele a tirou para dançar. Pelas poucas palavras que trocaram, ele percebeu que estava com alguém não só de uma beleza atraente, mas também de uma inteligência perspicaz. Lílian era seu nome.

Ele sentiu de imediato que os dois dançavam como se tivessem ensaiado por várias vezes. Em certo momento, ele se aproximou e pressionou seu corpo contra o dela. Foi maravilhoso. Ela apertou sua mão com uma força intensa. Quando a música foi interrompida por um pequeno instante, Bruno se aproximou e perguntou a ela: “Foi bom ou não foi?” Ela respondeu: “Foi ótimo!” Então Bruno voltou-se para ele e comentou em seu ouvido: “Hoje ela quis vir de qualquer maneira. Você não percebeu que ela é cega?” Ele ficou atônito. Despediu-se rapidamente dos dois e foi para casa com a sensação de que havia feito algo errado.

Ao nos desenvolvermos como pessoa, assimilamos não somente o conhecimento que nos é passado pela família e pela educação formal, ou seja, a educação que recebemos na escola, mas principalmente assimilamos a maneira de ver as coisas segundo a nossa condição social e econômica. Assim, são solidificadas “lentes”, muitas vezes rígidas, que nos fazem sensíveis a determinadas coisas a nossa volta e insensíveis a outras. Aprendemos na escola e pelos meios de comunicação de massa que existe uma péssima distribuição de renda em nosso País, pessoas que vivem em favelas, criminalidade, penitenciárias que não resolvem o problema, leis que não punem verdadeiramente, políticos profissionais, etc.

Mas todo este conteúdo não passa, muitas vezes, de puros dados informativos. Entendemos o que acontece, mas não conseguimos contextualizar todos estes problemas em nossa vida concreta e, muito menos, relacionar a nossa vida particular com os mesmos. Se estamos em uma situação relativamente privilegiada podemos ver tudo, mas sentir tudo isso de uma forma cômoda e distante através das lentes de nossa vida individual. As lentes que utilizamos para ver o mundo nos levam a perceber o que já conquistamos e o que podemos com diversas artimanhas e “segredos” atingir mais sucesso individual.

Mas estas lentes pequeno-burguesas não nos levam a ver o caos social no qual estamos mergulhados, e como a qualidade de vida poderia ser muito melhor se a maioria da sociedade alcançasse pelo menos os direitos fundamentais que estão em nossa Constituição. Por isso, mais importante que se informar das situações a nossa volta é procurar compreender quais são as lentes pelas quais enxergamos estas situações. Justamente aqui se encontra a diferença entre o homem erudito e o homem sábio

O ser humano erudito lê os melhores livros e discute filosofia com os amigos também eruditos, mas está totalmente desligado do que acontece em sua sociedade. Isso pelo simples fato de que sua vida está bem. O ser humano sábio discute filosofia com qualquer pessoa justamente porque está preocupado com a situação atual de todos. A diferença não é o assunto. Os dois podem discutir problemas sociais, porém, para o primeiro é apenas um exercício de raciocínio, para o segundo é uma preocupação de criar consciência em relação ao contexto em que todos vivem. A diferença essencial são as lentes através das quais os dois enxergam o seu universo. O mesmo ocorre com as instituições como, por exemplo, a escola. Uma escola pode transmitir conteúdo informativo para que seus alunos possam passar no vestibular e entrar em um curso superior.

Por sua vez, este poderá prepará-lo para ser um profissional competente e conquistar um espaço no mercado de trabalho. Porém, no aluno, e depois no universitário, está se solidificando uma visão de mundo individualista e sem consciência do seu próprio contexto. Um espaço educacional é um espaço de descoberta do que somos e, principalmente, de percepção das lentes através das quais enxergamos o nosso universo. Na mesma intensidade que enxergamos todas as dimensões da vida é preciso compreender o material do qual foram confeccionadas as lentes que determinam a forma pela qual interpretamos todas estas dimensões. Contextualizar-nos significa, por exemplo, não perder de vista que, mesmo vivendo em uma condição econômica privilegiada, continuamos a ser terceiro-mundistas.

* Para entrar em contato com o padre Beto, acesse o site www.padrebeto.com.br.

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