Tribuna do Leitor

Nossa Senhora de todos nós


| Tempo de leitura: 5 min

Não tenho autoridade, nem quero tê-la para escrever em nome da minha crença. Tenho, isto sim, o direito de pensar, de divergir e até de errar. Não tenho, porém, o de permanecer conscientemente omisso, quando o evangélico Edson Ortigoso Romero, no artigo “Nossa Senhora de Todos Nós”, do dia 1º de novembro, critica de uma maneira revoltante a todos aqueles que professam a religião católica e são devotos de Nossa Senhora e dos Santos.

O Apocalipse de São João descreve Nossa Senhora no esplendor do paraíso. Vestida de sol, tendo a lua sob os pés e, na fronte, a coroa de doze estrelas. Linda, portanto, gloriosa, onipotente. Os poetas a souberam enaltecer por ser Ela a mãe do Criador. E nós a queremos exaltar por tudo que Ela é, mas, sobretudo, porque na dor crepuscular de sua cruz, no-la deu Jesus por mãe, naquele entardecer de sua morte.

É preciso não esquecer que tudo o que se refere a Maria, Nossa Senhora de Todos Nós, refere-se também a Deus. Nossa Senhora não age por conta própria, de forma independente. É Deus quem a envia, é Deus quem deseja que a tenhamos, como Mãe, a Ela recorrendo em nossas necessidades.

É, portanto, pela graça de Deus que a presença de Maria acontece, e não pela capacidade dela. O poder que Ela tem, vem todo de Deus, a quem Ela está intimamente unida. É em obediência a Deus que Ela age. E se é Deus quem quer, quem somos nós, Sr. Edson Ortigoso, para contestar, para duvidar ou para recusar?

Tenho para mim que uma das piores chagas da humanidade é o fanatismo, seja de que espécie for, inclusive o religioso.

Ser fanático é deixar o raciocínio e abandonar-se aos impulsos agressivos, É falta de capacidade de ver as razões do outro lado. Já as Escrituras nos advertem de que devemos “oferecer a Deus um obséquio racional” (Rom. 12,1). Todos conhecem a crueldade do fanatismo político, capaz das maiores injustiças, e de abrir feridas de difícil cicatrização. No decurso da história, a maioria dos conflitos armados, também nos dias atuais, tem como fonte venenosa o ódio que se aninha nos corações fanáticos.

O fanatismo religioso, Sr. Edson Ortigoso, também é um perigo, que devemos evitar a todo custo.

Teimosamente e até de uma maneira provocativa, o Sr. Edson escreve que nós, católicos, somos idólatras adoradores de imagens. Quantas vezes, seremos obrigados a dizer que somente a Deus adoramos, Maria e os Santos, nós os veneramos, os reverenciamos.

Examinando a Bíblia, o Sr. Edson certamente lerá que a palavra “imagem” é usada, às vezes, no sentido de: expressão autêntica e adequada. São Paulo diz que Cristo é a imagem de Deus (2 Cor. 4,4; Cor. 1,15; 3,10), outras vezes indica subordinação a uma ordem superior, como o cristão em relação a Cristo (Rom. 8,29),como a vida terrestre em relação às realidades espirituais (1 Cor. 15,49; 2 Cor. 3,18). Neste sentido se diz que o homem foi criado à imagem de Deus (GN. 1,26; 5,1; 9,6; Sab.2,23; Ecl.17,1; Sl 2,23).

No Ex. 20,4,6, a proibição de imagens refere-se às imagens dos deuses estrangeiros e não de qualquer espécie de desenho, pintura ou cultura. Trata-se de ídolos e de figuras de deuses falsos que tomavam formas de pessoas, animais, astros, etc. tanto assim, que o mesmo Deus mandou Moisés fazer uma serpente de bronze, essa imagem da serpente era refigurativa de Jesus pregado na Cruz (Jo. 3,14). Além disso, Deus determina a Moisés fazer dois querubins para cobrirem o propiciatório (Ex. 25,18). Salomão, quando construiu o templo, mandou também fazer querubins e outras figuras várias, entre as quais leões e bois (1 Rs. 7,29). Nem por isso, o templo foi do desagrado de Deus. Com essas proibições, Deus procurava proteger o pequeno povo de Israel, cercado de tantos povos idólatras e ele mesmo propenso à idolatria.

Portanto, sr. Edson, os católicos têm nas imagens a lembrança, a feliz memória do Filho de Deus, de Maria de Nazaré, a Maria de Todos Nós, dos Santos que foram fiéis ao Evangelho, muito diferente das imagens dos deuses egípcios ou de outros povos, isto é, ídolos que eram adorados e aos quais se atribuíam poderes divinos. Uma coisa é imagem, outra é ídolo. O mesmo Deus que proibiu fazer imagens (de ídolos) mandou fazer imagens (não de ídolos), como a serpente de bronze, os querubins.

Católicos amam a Nossa Senhora de Todos Nós e os Santos. Eu também os amo. Não tenho muitas imagens deles, mas de alguns sim. Não os adoro, mas gosto deles e os admiro. É gente de primeira linha, adjetivada, qualificada pela graça. Os Santos nos fazem pensar em quem nos precedeu. Maria de Todos Nós nos faz pensar na Santíssima Mãe de Jesus, Nosso Salvador.

Infelizmente, sr. Edson Ortigoso, nesse caldeirão de religiões no Brasil, ainda há esboço de enfrentamento. Cuidemos todos, eu e o Senhor, para que o bem triunfe pelo diálogo, pela caridade fraterna, pelo reconhecimento dos próprios erros. A misericórdia é mais poderosa do que a justiça. “Justiça e paz se abraçarão”. (Sl 85,10)

Solicito ao Felisteu Leão, autor do artigo criticado pelo sr. Edson, que faça constar na relação dos devotos de Nossa Senhora de Todos Nós o meu nome e os dos mais de 57 milhões de católicos que concordam com o emprego do pronome na primeira pessoa do plural. Um forte e fraterno abraço.

Gino Crês - professor

Comentários

Comentários