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Nyéléni


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Há quem afirme que a submissão da mulher deve-se à passagem do nomadismo à fixação à terra pela agricultura. Concordando ou não, é sabido que a maior parte dos alimentos é produzida por mulheres. Buscaram as sementes mais produtivas, descobriram como adaptar cada planta às características climáticas, ao regime as chuvas. Os cultivares têm séculos de sabedoria pouco reconhecida, mas indispensável para que a agricultura siga essa empreitada bem-sucedida.

No planeta terra se tem produzido o dobro das necessidades de alimento de toda população. Se mais de 800 milhões de pessoas passam fome, é necessário se perguntar por que o acesso aos alimentos não é democrático.

Quando em fevereiro deste ano, mulheres de 86 países (da África, Oceania, América, Europa, Ásia) se reuniram em Selingué (Mali) estavam decididas a tratar de uma questão de fundo. Na declaração por todas aprovada deixaram explícito e bem claro que elas são participantes da “construção de um novo direito: o direito à soberania alimentar”. Para tanto, querem intervir “para mudar o mundo capitalista e patriarcal, os quais priorizam os interesses do mercado em detrimento dos interesses das pessoas.”

Ao contrário das várias gestões de representantes de países, ditos emergentes, para acordar cláusulas sobre a agricultura, as mulheres declararam: “Queremos que a alimentação e a agricultura sejam excluídas da OMC e dos acordos de livre comercio.”

Descoladas das viciosas óticas ditadas pelas “leis” do endeusado mercado, elas fazem uma abordagem contrária aos que “concebem os alimentos, a água, a terra, o saber dos povos e o corpo das mulheres com simples mercadorias.”

Miriam Nobre, da coordenação internacional da Marcha Mundial de Mulheres, presente em Selingué, informou que Nyeléni, filha única, segundo a tradição, não teve filhos nem se casou; demonstrou que a mulher é capaz de superar milênios de discriminações e condicionamentos e arrebatar incontáveis prêmios de produtividade. Impulsionadas por essa mulher emblemática as mulheres se congregaram nesse evento mundial. Não foi, pois, sem razão que o evento se intitulou Fórum Nyéléni de Soberania Alimentar.

O planeta está ressentido com as inúmeras ações predatórias ao longo dos séculos. Por não ser fóssil, propagandeia-se o agro- combustível como uma energia limpa embora, nesse modelo do agronegócio, atente contra a sustentabilidade, contra a garantia de produção de alimentos. Não se toca no essencial, no irracional padrão de consumo inacessível à maioria da população, no direito de todos e todas à alimentação adequada. É preciso mudar. As mulheres marcham “para mudar o mundo e mudar a vida das mulheres em um só movimento”.

Por isso em Selingué as mulheres declararam: “Encontraremos a energia para levar adiante o direito à Soberania alimentar, direito que traz a esperança de construir um outro mundo. Retiraremos essa energia de nossa solidariedade e levaremos esta mensagem às mulheres de todo o mundo.”

A autora, Iolanda Toshie Ide, é vice-presidente do Conselho de Direitos da Mulher de Lins

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