Tribuna do Leitor

Às mestras, com carinho


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Tive nos primários anos escolares a iniciação educacional externa à minha mãe e à minha casa pelas mãos de minhas quatro paixões femininas, um amor a quatro tempos, um sentimento que carrego como delicioso fardo infantil, a obrigação do transmitir a liturgia pedagógica delas. Não sou didático. Não professo credos de aprendizado de salas de aula. Amo o autodidatismo. Regras para o aprendizado são o livro da vida, a esquina do seu quarteirão sem volta, a leitura do seu cotidiano. Paulo Freire ensina que a palavra e o verbo nos moldam, embevecidos que fomos pelos nossos primeiros educadores, da personalidade deles. Minhas mestras primeiras, eu as chamava de donas. Hoje as invoco como as madonas e as pietás perpetuadas como se um Michelangelo fosse eu, hoje, minhas donas madrinhas.

Maria Aparecida, 1958, Colégio São Francisco, Bela Vista, primeira mão do meu engatinhar até à prancha da lousa e da taboada do saber. Olhava muito mais para ela do que o be-a-bá da cartilha. Minha primeira musa. Pele clara, cabelos curtos, encaracolados. E doía em mim a ausência dela em minha casa, absorto nos livros dos meus castelos imaginários, das minhas princesas dentro enclausuradas.

Dona Isler. Meu segundo amor. Singeleza que cabia no vão de uma folha de papel bíblia. Eu a via com asas, anjo diáfano, que o corpo de sílfide pairava nas páginas da minha cartilha “Caminho suave”, e depois voltava à mesa com sua fala melíflua, tenra, calma. Jamais esquecerei aqueles olhos enigmáticos, para mim úmidos de amores próximos ou longínquos.

Dona Beatriz. Terceiro ano de minhas primeiras emoções. Olhos severos, maças do rosto feito cores e formas de tâmaras em oásis. Nariz adunco, testa pequena, olhar penetrante. Colou-me um durex na boca, e obrigou-me a sair com ele até ao portão de saída. Tagarela que sempre fui, recebi o primeiro cala boca que meus despropósitos verbais de hoje, refreiam minhas emoções. Foi ela que me disse às avessas, dizer não ao digo, ao proibido proibir. Freio de minhas emoções precoces, eu a descobri em Dante Alighieri, na sua “Divina comédia”, o tempero da moderação.

Dona Adelma. Quarto ano primário. Capítulo à parte. Mãe, acima de nossas mães na sala de aula. Culta, literata, a lousa no fundo de seu corpo majestático, cingia-se nela um pano de clarividências de saber. Antes da leitura do “Ateneu”, livro de Raul Pompéia, vislumbrava a dona Adelma, como um Aristarco Plutão de saias, o diretor cruel e espartano personagem forte do livro. Ledo engano!

Ontem, sua voz pesada no timbre, estabelecia severamente a conduta de seus propósitos. Hoje eu a tenho como vizinha nas minhas andanças. Mãe, avó dedicada, tem na singeleza das rugas do seu rosto, bondosas marcas do dever cumprido como educadora. Como eu adentrei pela porta de sala de aula de ontem, passo hoje pelo seu portão caseiro com uma saudação de bom dia pelo cotidiano, e por uma boa noite, quando o portão da infinita escola da vida e do saber fechar-se-á.

Espero que nunca!

Odair Castilho - RG 5.604.771

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