Brasília - O presidente Lula sugeriu ontem, Dia Nacional da Consciência Negra, que os afrodescendentes se unam e exijam de forma organizada seus direitos. Segundo ele, a união é fundamental também para garantir a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, que tramita há quase dez anos no Congresso.
Lula afirmou que é necessário definir uma proposta única para evitar polêmicas e mais atrasos. Bem-humorado, o presidente recomendou que os afrodescendentes “cutuquem” o governo para que obtenham os benefícios prometidos. “Com o somatório de cutucação é que vocês vão tirar mais conquistas”, afirmou, durante a cerimônia em que anunciou a liberação de R$ 2,1 bilhões - no período de 2008-2011 - que deverão beneficiar 850 mil pessoas de comunidades quilombolas espalhadas no Nordeste, Sudeste e Sul do País. Estatuto “O estatuto (da Igualdade Racial) só será aprovado quando tivermos uma só proposta. Ou nós vamos completar cem anos, como o (arquiteto) Oscar Niemeyer o estatuto ainda vai estar no Congresso”, disse Lula. “Será que vocês não aprenderam? Quanto mais nós exigimos (de forma dividida, sem unidade), mais os adversários têm vitórias sobre nós.”
Em seguida, o presidente afirmou que: “Vamos deixar aquilo que nos desune de lado para a gente conquistar a vitória”. Indiretamente, ele lembrou que nem sempre tudo o que é necessário e desejado pode ser incluído em uma proposta. “É quase um apelo: as coisas que nós temos de fazer serão alcançadas, se a gente construir o possível”, disse.
Na presença de autoridades brasileiras e estrangeiras, além de representantes de movimentos de defesa dos afrodescendentes, dos quilombolas e de religiões de origem africana, o ministro Gilberto Gil (Cultura) fez um discurso emocionado. “Não foi uma caminhada fácil. Não tem sido. Nem será (mas já houve avanços)”, disse ele. A ministra Matilde Ribeiro (Igualdade Social) também se emocionou durante a solenidade: “Tenho orgulho de ser descendente de africanos e acho que todos aqui têm”.
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Sermão sobre impostos
São Paulo - O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e o prefeito Gilberto Kassab (DEM) acompanharam ontem uma missa em homenagem ao Dia da Consciência Negra na catedral da Sé (centro de São Paulo). O evento contou com a presença de diversos grupos paulistas de congada. No evangelho foi lida uma parábola sobre o cobrador de impostos que doa metade de sua fortuna aos pobres depois de conhecer Jesus.
Na homilia, o bispo-auxiliar de São Paulo dom José Benedito Simão afirmou que os cidadãos devem ser iguais pois, “não importa se são brancos ou negros, são todos filhos de Deus, que pagam seus impostos”. “As leis (de igualdade) são importantes, mas precisamos nos esforçar para que haja uma educação de base não só formal mas também informal. Para que as pessoas não sejam só instruídas mas também educadas para um novo humanismo.”
Na saída, Serra destacou que no Brasil ainda há “muita discriminação associada à raça” e elogiou a presença dos grupos de congada, que “são devotos da Igreja Católica e mantêm suas tradições”. Ele afirmou ainda que, em comemoração à data, o governo do Estado distribuiu pela cidade cartazes com os nomes e fotos de grandes afrodescendentes brasileiros como Machado de Assis, Gonçalves Dias, Mário de Andrade, Carlos Gomes e Luiz Gonzaga.
O prefeito Kassab afirmou que o feriado é importante para “exteriorizar as nossas preocupações com as discriminações que ainda existem”. Na praça da Sé, houve shows desde o começo da tarde de ontem. O evento terminaria por volta das 19h, com um show de Martinho da Vila.