Tribuna do Leitor

O mundo em grades


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Quantas vezes mais poderemos assistir ao enterro de nossa última quimera?! Por quanto tempo a esperança em um mundo melhor estará acesa em relampejos, por quantos realejos?! Novamente o ‘Enquanto ELA Não Vem’ nos provou por “A+B” quantos horizontes se tornam possíveis com a ressocialização. Em sua última apresentação do ano (no passado dia 14, pelo Projeto Perspectiva da Unesp), o Grupo mostrou em detalhes a sua evolução nas performances de palco.

Com um enredo instigante, o drama “GRADES” nos revela mais do que imaginávamos sobre a vida no cárcere. Além do realismo presente na encenação, o pior é pensar, saber que a trama é baseada em fatos reais. Fatos da vida do elenco.

Sob o pano de fundo da história de um criminoso silvestre – que cometeu o crime ambiental de ter como animal de estimação uma jaguatirica, ameaçada de extinção – e simplório do interior, são construídas situações paralelas em que se é possível captar mais que um dia na prisão, na pressão.

No primeiro ato, o novato é literalmente jogado às feras e põe à prova seus instintos de sobrevivência. Num titubear de corpos grunhindo, gemendo, se mutilando, uma sinestesia angustiante nos traz a realidade impressa, insalubre e obscura de como é deixar de ter liberdade num país como o Brasil.

A seguir, a forma como as feras narram sua trajetória humana no mundo do crime confunde nossos sentimentos: enraivece, encanta, emociona; nos faz compreender o que vemos como erro e ele, como solução – algo além de qualquer das partes, que traz a todos conseqüências sombrias e que, somente por todos pode ser resolvido.

Amanhece. E o duelo humilhante desses pequenos gigante por um pedaço de pão com graxa (manteiga) faz uma brilhante referência ao clássico de Stanley Kubrick – “2001: Uma Odisséia no Espaço” – além de nos mostrar mais um ponto escondido da fome no país, fome de sociedade.

A trilha sonora muito bem casada com o enredo, o talento e bom desempenho dos atores e uma ótima presença de palco (e toda a simulação de uma cela em plena liberdade), tornam o cenário e o figurino (muito bem improvisados, por sinal) elementos simples, complementares à totalidade da performance – muito bem executada.

A Justiça, cega, é personalizada e incorporada à trama de uma forma surpreendente e original, trazendo mais próximo do expectador o desespero e as incertezas do julgamento do personagem principal. “Culpado...Cul-pa-do...Cul-pa-do...Culpado!”. Assim, mais um erro é cometido pelo ‘Olho que tudo vê’, mais uma sentença é dada, mais um destino sem horizontes.

No último ato, uma voz declama José de Carlos Drummond de Andrade ao passo que o elenco executa uma coreografia de maneira brusca, grosseira, na tentativa de tornar seus movimentos leves e graciosos como o último gesto da peça: o apelo pela paz. Nesse instante a voz se sobressai: “Porque uma parte de mim é Amor.

E a outra...”. E, num momento de intimidade e interação infinita a paz voa longe e fala mais alto: “E a outra Também”, “Também”, “Também”, “Também”, “Também”; arrancando lágrimas e aplausos daquele que passam a acreditar que a Arte une opostos e traz a esperança daquele mundo tão sonhado por muitos: o mundo fora das grades. “Espero, de coração que ela - a Liberdade - chegue antes que o sofrimento. Mas, que alguma liberdade não chegue nunca, para que vocês continuem livre para mostrar, a quem quiser contemplar, a luz de suas almas.”

Ana Elisa Pereira de Almeida - Ani

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