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Feiúra é fundamental


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Que me perdoem as belas. Feiúra é fundamental. Umberto Eco acaba de lançar um livro de luxo chamado “A História da Feiúra”. Rico em ilustrações coloridas, de feio o livro não tem nada a não ser o preço de R$ 160,00. Pelo menos para um jornalista pobre já conformado de ficar sem o presente de Natal. Contento-me com as resenhas. Li que semiólogo italiano derrama sua incrível erudição sobre tudo o que o mundo produziu de monstros e prodígios desde a Idade Média, passando pelo cômico e o obsceno. Imagine um marciano, recém-chegado à Terra que se deparasse com o quadro “A mulher que chora”, de Picasso: consideraria que os homens daqui tinham aquele rosto como belo. Por que não? Como os ensaios de Eco demonstram, é muito complexo buscar uma definição para a feiúra. O que é ser feio e o que é ser bonito? Somos um país que valoriza a estética a seu modo. A chamada “ditadura da beleza” não tem limites. Ela se fortalece e se expande principalmente tendo como cabo eleitoral a televisão, com seus galãs e musas que ditam os padrões nacionais. Ser feio ou feia, isto é, estar fora do modelo global parece pecado e maldição. As mulheres querem cortar um pedaço do nariz para ficar igual a... Sei lá quem.

Lembro o não muito distante episódio que envolveu o deputado e estilista Clodovil Hernandez (PTC-SP) com a sua colega parlamentar Cida Diogo (PT-RJ). Clodovil disse que Cida é feia. Magoou uma deputada tida como honesta, correta, trabalhadora. Uma líder do movimento das mulheres. Quando vi a fotografia da Cida gostei dos olhos azuis expressivos. Na hora da raiva as pessoas dizem até que é feio o que bonito lhe parece (Vinicius). O ser humano é muito contraditório. Nem se fosse verdade, é um pecado julgar as pessoas a partir das aparências. Antes de tudo, isso é um atestado de superficialidade. Ser feio ou ser bonito é uma questão subjetiva. O que importa mesmo é o interior, a educação, o caráter, a personalidade e a atitude moral das pessoas. É fácil ser bonito quando se é jovem.O físico envelhece, morre. O que se eternizam são as boas obras ou exemplos deixados. Jovem qualquer imbecil é. Bastam alguns anos. Para envelhecer é preciso talento.

Em sua obra Eco mostra o grotesco que se extravasa na literatura quando os autores descrevem as almas corruptas que se revelam na face ou num esgar diabólico. A ganância pelos bens materiais ou fungíveis, como o dinheiro foi magnificamente estampado em “O Avarento”, de Molière. Inesquecível na pele de Paulo Autran.

O problema central de julgar os homens e mulheres pela aparência é parte de uma cultura da mediocridade. Não consigo achar a Mônica Veloso bonita ao saber que ela esteve, em certo momento, solidária a um ladrão de recursos públicos e deles usufruiu, sabedora da procedência. Se o amor é cego deve aperfeiçoar outros sentidos. A consciência, por exemplo. Os que parecem bonitos em seu exterior podem ser os primeiros a praticar atos ilícitos que tanto infelicitam nosso povo. Por outro lado, há tantos que podem ser considerados feios, mas cujo interior abriga imensa bondade e grande decisão de servir o país.

É preciso, portanto, repensar atitudes, repensar procedimentos. Jamais escolher dirigentes para as estruturas de poder só porque são altos ou magros, só porque se apresentam bem diante das câmeras, só porque possuem um sorriso envolvente. Os feios podem ser somente mal-diagramados. É necessário conhecer a fundo as trajetórias, saber a respeito dos reais compromissos com o povo e, em especial, analisar a intensidade de cada coração. O velho Eco, sem ser moralista, como também não sou, nem hesitou ao afirmar, numa das suas conclusões - em muitos séculos de história os estetas proclamaram, e com razão: nada mais belo que o amor ao próximo.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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