Um ano para ficar na história. Assim está sendo 2007 para a indústria automobilística. Nunca se vendeu tanto carro como agora. O último grande momento do setor havia sido em 1997, mas as vendas deste ano já ultrapassaram a marca histórica de 10 anos atrás.
Em Bauru, a frota de veículos saltou de 134 mil para 165 mil nos últimos cinco anos – um crescimento de 23 % (números de outubro). Até o fim do ano, as ruas da cidade estarão ainda mais cheias. Segundo previsão da 5.ª Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) de Bauru, a frota deverá chegar a 170 mil. Mas será que a cidade está preparada para receber um volume tão grande de veículos?
É consenso entre as autoridades que são necessários alguns ajustes. Em horários de pico, o trânsito nas principais vias da cidade não chega a parar, mas já é possível notar uma lentidão que irrita os motoristas, uma prova de que o sistema viário de Bauru está perto de seu limite. Com as vendas de veículos superaquecidas, a situação poderá ficar ainda pior em um futuro próximo.
Segundo o secretário municipal de Planejamento, Leandro Joaquim, a prefeitura tem um “estoque de bons projetos” envolvendo o sistema viário da cidade, mas é preciso recursos para colocá-los em prática. Ele conta que já foi requisitada uma verba do governo federal no valor de R$ 60 milhões, que, entre outras finalidades ajudaria a melhorar o trânsito na cidade.
Entre as obras projetadas pela prefeitura, estão a construção de uma avenida às margens do córrego Água do Sobrado (entre a rua Bernardino de Campos e a avenida Castelo Branco), outra às margens do córrego Água Comprida (próximo ao Sambódromo), a conclusão da duplicação da avenida Comendador José da Silva Martha, da Nações Unidas em direção à região Norte e do viaduto sobre a rede ferroviária. Só o prolongamento da Nações Unidas está orçado em R$ 20 milhões.
A criação do Fundo de Melhoria de Infra-Estrutura também poderá dar importante colaboração para melhorar o sistema viário da cidade. Segundo o secretário, alguns terrenos serão colocados à venda e o dinheiro arrecadado financiará obras de pavimentação. Entre essas obras, está a pavimentação de pontos que serviriam para ligar diferentes bairros sem a necessidade de passar pelo Centro.
Além disso, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) deverá incluir no pacote de concessão da rodovia Marechal Rondon à iniciativa privada a obrigatoriedade de construir vias marginais no trecho urbano entre as rodovias Bauru-Ipaussu e Bauru-Marília.
Com isso, a Rondon ficaria livre do trânsito urbano. De acordo com o secretário, nesse trecho delimitado pelo DER circulam cerca de 35 mil veículos todos os dias, sendo que o movimento maior fica entre as avenidas Nações Unidas e Nuno de Assis. “Hoje, esse trecho da rodovia tem características de avenida”, compara Joaquim.
Ele lembra também que o Município tem tomado o cuidado de analisar os impactos que grandes empreendimentos podem provocar no trânsito antes de aprovar a obra. “Quando vemos que o empreendimento vai ter um impacto muito grande no trânsito, estipulamos para a aprovação do projeto medidas compensatórias que ajudem a reduzir esse impacto”, diz.
Alternativas
Para o diretor da Ciretran, Adib Jorge Filho, o aumento na frota de veículos exige uma responsabilidade muito grande das autoridades que administram o trânsito na cidade. Segundo ele, a frota cresceu, mas o sistema viário continua o mesmo de anos atrás. Por isso, é preciso buscar alternativas para atender demanda cada vez maior por um espaço nas ruas da cidade.
Segundo ele, de modo geral, o trânsito tem fluído bem na cidade, mas em determinados horários o escoamento deixa muito a desejar.
Já o engenheiro de trânsito Arquimedes Azevedo Raia Júnior critica os incentivos que o governo dá para a aquisição de veículos novos. “Existe uma política governamental de incentivo a aquisição de carros e motos. Há sempre comemorações quando se atinge recorde de vendas. Na verdade, a falta de visão do governo não permite enxergar que enquanto ele fica com os impostos, os municípios, que recebem os veículos, ganham problemas de dimensões enormes”, destaca.
De acordo com Raia, hoje está muito fácil comprar um veículo, o que desestimula o uso do transporte coletivo. “Eu diria que é uma concorrência desleal”, afirma. “Será que alguém largaria o carro na garagem para andar de ônibus mesmo que houvesse uma melhoria na qualidade do transporte coletivo? Acho difícil”, aposta. “Na medida que isso acontece, temos acidentes, congestionamentos, barulho, poluição e uma diminuição na qualidade de vida”, aponta.
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Rápido demais
Para o engenheiro de trânsito Arquimedes Azevedo Raia Júnior, o aumento da frota está ocorrendo com muita rapidez em Bauru e o sistema viário não está acompanhando essa evolução no mesmo ritmo. Como conseqüência, a cidade terá sérios problemas no trânsito se nenhuma medida for tomada imediatamente.
Na avaliação do engenheiro, o sistema viário de Bauru é muito restrito. A cidade não possui vias largas e não há alternativas para fugir do trânsito na região central. “As principais vias, como a Rodrigues Alves, a Duque de Caxias e a Nações Unidas, têm uma capacidade de fluxo muito baixa. Elas possuem apenas duas pistas. Isso é muito pouco. A cidade não tem radiais, não tem anel viário e o sistema, como um todo, não é adequado”, opina.
Alargar as avenidas seria uma solução, mas o custo disso para o Município torna o projeto inviável. Seria preciso fazer uma série de desapropriações e isso não fica barato. Uma alternativa possível seria a construção de um anel viário que possibilitasse o deslocamento dos veículos entre os diferentes bairros da cidade sem ter de passar pelo Centro.
Outra deficiência apontada pelo engenheiro são os poucos pontos de transposição da rodovia Marechal Rondon, que praticamente divide a cidade ao meio. Atualmente, existem apenas quatro alternativas: as avenidas Nuno de Assis, Rodrigues Alves, Duque de Caxias e Nações Unidas. Na opinião de Raia Júnior, são poucas opções para uma cidade com tantos veículos – proporcionalmente, Bauru tem um veículo para cada dois moradores.
Com mais carros na rua, imagina-se que a vida útil do asfalto tende a diminuir, mas segundo o engenheiro, o que estraga a pavimentação não são os veículos de passeio, mas aqueles mais pesados, como ônibus e caminhões, cuja frota quase não cresceu nos últimos cinco anos.