Internacional

‘Viagem a Darjeeling’ convida a um roteiro excêntrico e pessoal

Por Pedro Butcher | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

Aparentemente convencionais, os filmes de Wes Anderson são marcados por uma fina estranheza. Não se trata de um desejo exibicionista de ser diferente, mas de um apelo a pequenas excentricidades que vão contaminando o classicismo do filme pelas bordas. Detalhes que se fazem ver na dramaturgia, no tom de interpretação dos atores e mesmo nos cenários e figurinos, que contribuem para construir um universo de regras muito próprias.

“Viagem a Darjeeling”, que estréia hoje no Cine’N Fun do Alameda Quality Center, não é melhor nem pior que os outros três filmes desse diretor que despontou em 1998 com “Três É Demais”. Os trabalhos de Anderson são raros exemplos de uma sólida expressão pessoal, em que virtudes e vícios contam pontos a favor. Os vícios fazem parte de sua singularidade.

Questões de paternidade, desajuste e a necessidade de transformação espiritual reaparecem neste novo longa-metragem, que se apresenta como uma viagem de possibilidades redentoras empreendida por três irmãos (Owen Wilson, Adrien Brody e Jason Schwartzman), brigados desde o funeral do pai. O cenário: uma Índia exótica e espiritual.

Entra em cena a primeira “excentricidade”. A estrutura é montada como uma espécie de ação em suspenso. Esperamos o tempo todo pelo real começo de uma história, mas, quando nos damos conta, o filme acabou. O formato episódico, marcado pelo fracasso de (quase) todas as tentativas de redenção dos personagens evita a ilusão de uma transformação óbvia. Identificação

Vários outros recursos ajudam Anderson a criar um jogo constante entre a identificação e o distanciamento. Como o barco em “A Vida Marinha com Steve Zissou”, o trem de “Viagem a Darjeeling” é como um palco, um cenário em movimento que permite uma série de jogos de deslocamento da câmera, ora acompanhando a direção do trem, ora movimentando-se em sentido contrário.

O visual e a interpretação dos atores são de uma estranheza divertida, enquanto a montagem e o uso da música ajudam a criar pontos de identificação. “Viagem a Darjeeling” começa com o trem partindo de uma estação, enquanto um homem corre para alcançá-lo. Os filmes de Anderson são um pouco assim: um convite para se embarcar em uma viagem pessoal, em que o diretor estabelece suas próprias regras e cria um universo muito particular.

Se elas forem aceitas pelo espectador, tanto melhor: seus filmes se transformam em um deleite; caso contrário, serão apenas uma experiência tediosa.

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