Comunicador da válvula à TV digital
Ao conversar com o ator, jornalista, radialista, publicitário e “bombril” Flávio Pedroso, você acaba por ter uma certeza: ele não dormiu nos últimos anos. Nascido no Interior e criado na metrópole, antes apaixonado por São Paulo, hoje ele não troca Bauru por qualquer outra cidade. Entre a fama, o homem de alma jovem viu a TV nascer “ao vivo” e chegar ao digital. Passou pelo teleteatro e os microfones de rádios diversas vezes, sempre com a voz segura e inconfundível que arrebatou fãs.
Hoje, Pedroso, que se orgulha de ter vivido - e viver - em dois séculos tão distintos, surpreende muitos leitores jovens pós-anos 80, última década áurea do rádio. Isso porque o jeito de escrever é solto e descompromissado, diferente da carga um tanto erudita que a voz conhecida das ondas médias trazia.
Na redação do JC, o responsável pela coluna “Conexão Biz” chega e deseja “Boa tarde” a todos. Para uns, a próxima frase será “Satisfação em revê-lo, meu caro”. E nessa brincadeira séria, o “seo” Flávio, o Pedroso ou qualquer outra face que ele ainda - aos 72 anos - não mostrou, é o senhor jovem que não pára no tempo e vai contando sua história de estrelas. “Digníssimo” leitor, surpreenda-se com o “desbunde” de Flávio Pedroso.
Jornal da Cidade – Do começo: como foi sua infância?
Flávio Pedroso - Eu nasci em Ourinhos há 72 anos, mas com 2 anos fui para São Paulo em companhia de meus pais. Meu pai era diretor de escola e precisou partir. Tive seis irmãos que faleceram jovens e fui amamentado por uma crioula chamada Jesuína. Quase me chamaram Caio, mas antes do meu nascimento, meus pais assistiram ao filme “Últimos Dias de Pompéia” e resolveram unir o nome dos personagens Flavius e Marcus. Eu me criei em São Paulo, fiz o primário e o científico por lá e não cursei faculdade. Meu primeiro emprego foi em uma empresa chamada Cooperativa Agrícola de Cotia, como auxiliar de escritório.
JC – O senhor morava em Cotia?
Pedroso – Não, em Pinheiros, a empresa ficava no meu bairro. Eu tinha 12 ou 13 anos e trabalhei lá um bom tempo, mas aquela não era minha praia. Então com 15 anos, procurei a Rádio Tupi, em Sumaré. Eu queria era fazer rádio. Tive um irmão, o Hélio, que alguns anos antes fora locutor. Me espelhei nele, já falecido, quando decidi me aventurar.
JC – E como foi a primeira experiência?
Pedroso - Na época, a direção artística da Rádio Tupi era do teatrólogo Oduvaldo Viana e eu estava em uma fase de transição de voz. O Oduvaldo me procurou após o teste e disse “Flávio! Você é ótimo como ator, tem as inflexões certas, mas infelizmente há um problema: a sua voz”. Então eu fiquei esperando para fazer um novo teste e, nesse meio tempo, pintou um programa chamado “Grêmio Juvenil Tupi” sob o comando do apresentador Homero Silva. Era um projeto que reunia jovens de talento e eu entrei nessa. Fiquei alguns anos no “Grêmio”, naquele tempo eu já redigia quadros humorísticos e interpretava.
JC - O senhor lembra de algum?
Pedroso – Ahhh, já faz tempo... A “escolinha” era uma novidade e eu interpretava um portuguesinho. Durante a minha passagem pelo “Grêmio”, o produtor Ribeiro Filho me convidou para fazer parte de uma comédia de situações (sitcom) que ele iria lançar chamada “Filho de Peixe”. Em 1953, eu assinei com a Tupi e fiz o sitcom por cerca de oito anos.
JC – Foi a primeira sit-com brasileira?
Pedroso – Creio que sim. Depois surgiram outros programas na mesma linha. O “Filho de Peixe” me deu um tremendo sucesso um ano depois de seu lançamento, num tempo em que a TV era incipiente e ao vivo. Com esse impulso, eu parti para “TV de Comédia”, uma série de textos que o Geraldo Vietri adaptava. O “TV de Comédia” era um teleteatro que ia ao ar aos domingos, sempre às dez da noite, e alternava suas exibições com o “TV de Vanguarda”, mais pesado e sério. Ainda, junto com a TV e o rádio, eu me aventurei como redator publicitário no final da década de 50 e na última agência pela qual passei, a Quadrante, conheci o Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, ex-homem forte da Rede Globo). Naquele tempo, o Boni era redator publicitário assim como eu.
JC – Vocês ficaram amigos? Como foi essa relação?
Pedroso - Fizemos contato quando ele já estava se ocupando com a televisão e ficamos amigos. Nessa altura, eu estava passando por um problema pessoal e me desiludi com São Paulo. Havia me casado e, depois de seis anos e três filhos, me separei. Nesse ínterim, o Boni me convidou para dirigir uma televisão no Interior, já que eu conhecia todos os meandros da TV.
JC – Era Bauru?!
Pedroso - Sim, e eu nem sabia que Bauru existia, pra mim Interior eram os 10 ou 15 dias de férias em Ourinhos. Bom, no final de 1969 vim a Bauru para saber em que pé estavam as coisas e foi uma decepção! Estava acostumado com a Tupi e não com aquela estrutura. Mesmo assim, eu voltei a São Paulo para acertar todos os detalhes dessa mudança com o Boni e o (Luís Antônio) Borghetti, diretor da Globo São Paulo. Mas antes que eu chegasse lá, um incêndio gigantesco consumiu as instalações da Globo na Rua das Palmeiras. O Boni já não estava lá e o Borghetti me colocou pra correr: “Eu lá quero saber de televisão no Interior?! Estou é preocupado com todo esse estrago”. E eu fiquei sem saber o que fazer, já tinha até alugado uma casa em Bauru.
JC - O senhor não pensou em voltar para São Paulo?
Pedroso – Resolvi tentar, podia procurar uma rádio ou jornal, porque cheguei a fazer uma coluna sobre TV na revista “São Paulo na TV”. Fui fazer rádio! Procurei a Bauru Rádio Clube, do Célio Gonçalves, me apresentei e falei sobre minhas experiências e ele perguntou se eu podia provar. Eu pedi um gravador emprestado e voltei a São Paulo, fui à Tupi e procurei meus amigos famosos: Barros de Alencar, Hélio Ribeiro, e depois fui à Globo, conversei com o Silvio Santos, a Silvinha, o Paulo Sérgio. Com cada um, eu gravei uma vinheta, já tinha na cabeça o programa que queria fazer aqui: “Feira do Disco”, um musical com participação dos ouvintes e 45 depoimentos de famosos, contratação certa. Foram três anos e então a (rádio) Auri-Verde me chamou e lá eu fiquei 18 anos. Foi uma fase muito boa, nos anos 70 e 80 a média de audiência da Auri-Verde batia 80 pontos no ibope. Eu tinha, em 1975, um nome consolidado pelo “Programa Flávio Pedroso”, de variedades e música, quando surgiu a proposta de trabalhar também na Globo Bauru como redator de publicidade, onde fiquei por 22 anos. Então, nos anos 70 eu fazia: rádio, TV e uma coluna de TV no “Diário de Bauru”.
JC – O senhor dormia?! E sobre o quê era a coluna?
Pedroso – Quando dava tempo (risos). Eu gosto de sair do lugar comum e criei uma coluna que chamada “Transes”, que usava uma terminologia diferente de todo o resto do jornal, com palavras como “desbunde” e “ibopeada”. Era uma coluna social, mas diferente do batidão social. Eu ajudei a fechar as portas do DB. Cheguei a prestar depoimento no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) por conta da coluna.
JC - Como o senhor chegou ao JC?
Pedroso – Eu conheci Renato Zaiden (diretor de marketing e redação do JC) quando trabalhava na Globo. Quando me aposentei em 1997, ele me convidou para produzir uma coluna de fofocas e já estou no JC há 10 anos.
JC – Além da TV, como era sua vida nas décadas de 50 e 60?
Pedroso - Eu era um cara namorador, namorei muita atriz. Namorei a Vânia Martins, a Maria Valéria, a Neide Mirtes, tive um flerte com a Carmen Marinho, que até hoje está na televisão. Eu era um garotão na flor da idade.
JC – E como as pessoas viam o senhor? Havia fama?
Pedroso - Veja: naqueles anos, não havia a idolatria que existe hoje. Atualmente, o ator de novela é um ícone. Nós tínhamos fama, prestígio, éramos conhecidos nas ruas, dávamos autógrafo, mas não havia o histerismo. Isso, talvez, porque o povão não estivesse acostumado com o novo veículo, a TV.
JC - O senhor chegou a se casar novamente?
Pedroso – Sim, depois de chegar a Bauru, encontrei a Sônia. Estamos casados há 37 anos. Tive três filhos.
JC – O senhor tem formação teatral?
Pedroso – Não. Sempre pensei: vamos nós e seja o que Deus quiser que à noite tem mais. Eu sou um curioso que se formou no dia-a-dia. Por exemplo, sou um jornalista que se fez na redação, escrevo desde 1954.
JC – Dos meios de comunicação pelos quais o senhor passou, qual foi o que mais lhe completou?
Pedroso – O rádio. A forma de expressão e as brincadeiras eram o que mais me satisfaziam. Criei, através de uma brincadeira com a minha esposa, na Auri-Verde, chamando-a carinhosamente de “Feia”. Sempre terminava meu programa com essa frase: “Feia, se é por falta de adeus, tchau e bênção e... leva esse (som de tapa batendo no peito)”.
JC – Quando o senhor começou, como seus pais reagiram a essa sua queda para o lado artístico?
Pedroso - Minha mãe adorou, a verdade é que a dona Maria Joana era fanática por novela. Uma das maiores realizações dela foi quando a rádio São Paulo (especializada em novelas) me convidou para que eu desse uma entrevista no programa “Mala Postal”. Meu pai, seu Joaquim, era mais conservador e desejava que eu fosse advogado, mas acabou por se acostumar e me admirar.
JC – Falando em admiração, o senhor foi homenageado há pouco tempo por Bauru. Como foi?
Pedroso – Tudo começou quando eu fui ao programa do Tuba Ferreira na TV Preve. Brincando, eu comentei que a única coisa que Bauru não havia me dado era o título de “Cidadão Bauruense”. E então o presidente da Câmara, Paulo César Madureira, vendo o programa, resolveu me outorgar esse título. Isso me deixou muito satisfeito, era tudo que faltava para eu ser bauruense de fato. Sem dizer que essa é uma forma de coroar uma vida de realizações, muitas delas aqui (em Bauru). Confesso que ao agradecer, depois de muito falar, me deu um nó e os olhos começaram a lacrimejar. Esse título ocupa um espaço especial na minha sala, junto com o de “Cidadão Paulistano” que o Paulo Maluf me concedeu.
JC – O senhor nunca pensou em voltar para São Paulo?
Pedroso – Nos meus primeiros anos em Bauru, eu mantive uma mania: só cortava o cabelo com o barbeiro da TV Tupi. Eu também queria voltar para a Tupi, mas com os anos e os filhos, esse desejo se foi e, hoje, eu quero distância da metrópole.
JC – Como o senhor, que viveu todos os períodos da televisão, do “ao vivo” ao digital, vê as mudanças desse meio?
Pedroso - Eu digo que sou um privilegiado por ser um cara de dois séculos. No século 20, eu vi o advento da TV e suas câmeras caixotes RCA. Hoje, vieram os avanços técnicos e a televisão digital. Por outro lado, a TV, artisticamente, não evoluiu, ela continua pautada em novelas e telejornais. A única novidade dos últimos anos foram os reality shows.
JC – E por falar em tecnologia, o senhor teve alguma dificuldade para se adaptar?
Pedroso – Sou um cara que se adapta fácil, não fico preso a coisas antigas e velhas. É lógico que tenho uma história, mas na verdade eu parto do princípio que você tem que acompanhar a evolução das coisas, você tem que acompanhar o mundo e não ficar parado vivendo do que você foi e fez. Você precisa viver o futuro. Por exemplo, quando o computador apareceu, eu procurei me interar e aprender para aproveitar o que ele podia me dar. Se não fosse assim, eu ficaria em um plano secundário, relegado ao esquecimento e preso à máquina de escrever.
JC – O senhor acha que as pessoas que lêem sua coluna no JC têm consciência de que o senhor tem 72 anos?
Pedroso – (Risos) Eu tenho a impressão de que o pessoal que não me conhece, quando me vê pessoalmente, se impressiona. Eu sou um homem de idade e à primeira vista posso causar um impacto. Quando eu fazia rádio, meu estilo era jovial, um pouco nonsense e quando as pessoas vinham me conhecer havia um choque. Eu me acostumei com isso, sinto que as pessoas que me conhecem há alguns anos me aceitam numa boa, mas aqueles que começaram a me ler atualmente se assustam quando comparam a minha figura ao meu texto.
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Perfil
Nome: Flávio Marcos Pedroso
Nascimento: 26/ 09/ 1935 – Ourinhos (SP)
Time do coração: São Paulo
Música: “Outra vez”, Roberto Carlos
Filme: “...E o vento levou”
Livro: “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa
Nota 10: Para um homem que acreditou em mim, Célio Gonçalves.
Nora zero: Para quase todos os senadores e deputados e para alguns governadores.