Polícia

Defesa pede exumação de adolescente

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 4 min

Alegando dúvidas sobre a morte do adolescente Carlos Rodrigues Júnior, 15 anos, durante ação policial no dia 15 de dezembro último, os advogados de quatro dos seis policiais militares acusados do crime - Gerson Gonzaga da Silva, 42 anos, Ricardo Ottaviani, 34 anos, Maurício Augusto Delasta, 33 anos, e Juliano Arcangelo Bonini, 34 anos -, protocolaram na Delegacia Seccional de Bauru pedido de exumação do corpo do jovem. Os defensores também solicitaram que um perito assistente nomeado por eles acompanhe o exame.

De acordo com Sérgio Mangialardo, um dos advogados dos quatro policiais, a defesa agora aguarda a decisão do delegado Marcelo Haddad, que preside o inquérito. “Protocolizamos o pedido ontem (anteontem). Também solicitamos um perito assistente para acompanhar a exumação”, conta. Para ele, houve precipitação no laudo da necrópsia, divulgado pelo Instituto Médico Legal (IML) três dias depois da morte do adolescente. “A minha preocupação é que todo o laudo foi precipitado”.

Na ocasião, o diretor do IML, Ivan Segura, informou que o jovem morreu de parada cardíaca em decorrência de choque elétrico. Foram fotografadas dezenas de marcas de lesões pelo corpo do adolescente, causadas pela queimadura das descargas.

Mangialardo destaca que a exumação irá esclarecer algumas questões sobre a causa morte do jovem. “Ainda temos dúvidas em relação a tudo o que aconteceu. E como isso pode influir na vida dos policiais, esperamos que a solicitação seja atendida”, diz. O delegado Marcelo Haddad confirma que a exumação foi requerida. “O pedido será reunido aos autos e despachados. A solicitação será analisada nos próximos dias”, esclarece, informando que o pedido pode ser deferido ou não pela Delegacia Seccional.

O médico Ivan Segura afirma que o que foi divulgado está fotografado e documentado pelo IML. “O instituto não tem absolutamente nada a esconder”, ressalta. Para ele, um novo exame deverá comprovar o que foi divulgado. “Se quiserem a exumação, não me oponho à nada. Será apenas uma confirmação do que foi feito”, avalia.

Segura está terminando o detalhamento do laudo. Ele informa que está reunindo as fotografias originais das lesões para enviar o relatório final à Seccional. O médico afirma que não há dúvidas de que o rapaz morreu em decorrência da aplicação de descarga elétrica. “A fotografia do coração do adolescente mostra claramente onde passou a corrente elétrica”, descreve.

____________________

Laudo

O médico Ivan Segura, diretor do Instituto Médico Legal (IML) destaca que para verificar a causa das 31 lesões espalhadas pelo corpo do adolescente (e não 30 como foi informado anteriormente), realizou um trabalho minucioso de comparação. Com o mesmo fio que teria sido utilizado para dar choques no rapaz, ele aplicou descargas elétricas em um pedaço de carne. Desta forma, descobriu que as lesões foram feitas aos pares, pois os dois lados descascados do fio precisavam estar em contato com a pele da vítima para que ocorresse o choque.

A descoberta só foi possível no final da semana passada, quando o IML recebeu o fio que teria sido utilizado pelos policiais. O objeto estava sendo periciado pela Polícia Técnica e foi liberado apenas no dia 20 ao instituto. De acordo com Segura, um dos choques causou apenas uma lesão, provavelmente porque uma ponta ficou em contato com a pele do adolescente e a outra fechou o circuito elétrico ao encostar em outro local.

Esta informação já consta no relatório fornecido à comissão de deputados federais da Comissão de Direitos Humanos e Minorias que visitaram Bauru no último sábado para verificar o andamento da apuração da morte de Carlos Rodrigues Júnior. Deputados estaduais da Comissão de Direitos Humanos que organizaram uma subcomissão para acompanhar o caso também receberam uma cópia do relatório.

____________________

Relembre o caso

Na madrugada do último dia 15 de dezembro, seis policiais militares foram à casa do adolescente Carlos Rodrigues Júnior, 15 anos, suspeito de ter participado de um assalto no Centro horas antes. Ele e mais um rapaz teriam roubado uma motocicleta.

Os seis policiais entraram na casa da família, noMary Dota, onde estavam o adolescente, a mãe e uma irmã. O jovem ficou trancado no quarto na companhia de policiais. A suspeita é que os PMs torturaram o jovem até a morte. De acordo com o Instituto Médico Legal, o rapaz levou 30 choques elétricos, sendo dois fatais. Os seis policiais que trabalharam na ocorrência foram presos em flagrante. A motocicleta roubada foi encontrada no quintal do adolescente e a vítima do roubo reconheceu Rodrigues Júnior como autor do crime.

Revoltados com a morte violenta do jovem, moradores do Núcleo Mary Dota protestaram, na noite seguinte, queimando pneus e galhos na avenida Marcos de Paula Raphael. Também depredaram orelhões, postes de sinalização e semáforos.

Comentários

Comentários