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Astronomia tem formação intensa e mercado restrito

Por Ingrid Tavares | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Um tubo e dois pedaços de vidro. Foi com isso que o astrônomo Galileu Galilei revolucionou o mundo científico, em 1609, ao fazer demonstrações do telescópio em Veneza. Mas está enganado quem pensa que para seguir os passos do italiano basta ficar vigiando o céu.

Além de informática, há muita física, matemática e cálculo envolvidos no bacharelado de astrônomo, oferecido apenas em uma instituição de ensino no país: Observatório do Valongo, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Não é só sentar e olhar para as estrelas. O curso está muito longe disso, é muito puxado. Setenta por cento dele é apoiado nas matérias de física e matemática’’, afirma Silvia Lorenz Martins, diretora do observatório, que oferece especialização em cinco áreas (mecânica celeste, astrometria, astrofísica, instrumentação e cosmologia).

Para se formar, ela avisa, o aluno, acima de tudo, precisa de muita dedicação. O bacharelado é dividido em nove semestres e em período integral, um dos fatores que explica a alta evasão do curso - em média, quatro pessoas se formam por ano, em contrapartida das 30 vagas preenchidas no começo da turma, após o vestibular.

“Isso acontece também porque você não sai pronto do curso, não é como um engenheiro que vai da faculdade direto para o mercado. Após a graduação, ainda são necessários muitos anos de estudo, do mestrado ao pós-doutorado, que deve ser feito fora do país’’, diz Silvia.

A explicação para tantos anos de estudo está no próprio dia-a-dia de trabalho, com poucas opções no mercado. São duas áreas de atuação que o futuro astrônomo encontra pela frente: a divulgação científica (trabalho em planetários, museus de astronomia e instituições de ensino para professores dos ensinos básico e fundamental) e a carreira acadêmica.

Mudanças

Mas para driblar a restrita atuação do astrônomo, algumas mudanças estão previstas para o próximo ano na UFRJ. Além de o curso ficar mais curto a partir de 2009, com quatro anos de duração, os alunos poderão sair com duas habilitações - uma em astronomia e a outra em matemática ou física.

“Queremos aproveitar alunos de outras áreas da faculdade para que eles estudem aqui, para disseminar o curso. Por isso, os físicos ou matemáticos que optarem em também estudar aqui poderão sair, ao final, com um segundo diploma’’, afirma a diretora. Mas quem não quiser esperar o projeto sair do papel pode ainda tentar um curso de física com habilitação em astronomia, como ocorre na USP (Universidade de São Paulo).

“O aluno desse curso sai como um professor de física, que se encaixa facilmente em uma escola, que pode usar a astronomia como um apoio interessante nas aulas de ciência’’, diz o astrônomo Enos Picazzio, professor do IAG (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas), da USP.

A vantagem do curso, segundo o astrônomo, em relação aos alunos que freqüentam o departamento para fazer matérias optativas, está no fato de haver um estudo mais seriado da astronomia nos quatro anos. “Para entender os problemas do universo é preciso ter uma visão universal da astronomia -um dos grandes campos que vão trazer transformações neste século’’, diz Picazzio.

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Maioria dos profissionais segue carreira acadêmica

A maioria dos astrônomos, segundo Silvia Lorenz Martins, diretora do Observatório do Valongo, está na carreira acadêmica. Não é à toa, já que é necessário ter, sem trocadilhos, conhecimento universalizado da área. “No caso da pesquisa, se você não formar uma pessoa refinadamente, e isso leva tempo, ela não vai para frente’’, diz o astrônomo Enos Picazzio, da USP. Mas para quem tem, além da mente inquieta do pesquisador, vontade de dividir o conhecimento, Picazzio avisa que o mercado está carente do trabalho de divulgação.

Prova viva é Daniel Rutkowski Soler, 21 anos. Nem se formou no curso de física com habilitação em astronomia, na USP, e ele observa dia sim dia não as estrelas - no caso, as artificiais do planetário em que ele trabalha - para o trabalho final do curso. Talvez por ser um bebê no colo da mãe quando o famoso cometa Halley passou pela Terra, em 1986, Daniel só se interessou pela área há poucos anos, no colégio técnico, quando leu uma porção de livros sobre física. Já no curso, resolveu no terceiro ano fazer uma escala entre a casa, na zona leste da cidade, e a faculdade, na zona oeste.

Virou voluntário do planetário do Carmo e, em menos de um ano, já integrava a equipe técnica de Produção Científica como contratado. No ano passado, foi transferido para o planetário do Ibirapuera. “Trabalhar com o universo, por si só, é muito bacana. Aliar ao trabalho com o público é estimulante’’, diz Daniel, que pensa no mestrado na área de ensino.

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