Tribuna do Leitor

Ato de infidelidade


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O ser humano molda Deus como o redentor dos seus males, o arquiteto maior de suas ambições e vulgaridades. Concordo. Deus se mede pela extensão de nossos pecados. É uma muleta psicológica eficaz. Quanto maior a muleta, maior é o pecado. Você aí, seu grande hipócrita, hoje no seu despertar ou dormir, no seu medo pela doença, no desespero pela diminuição do seu patrimônio, você, quantas vezes já rezou pelo seu Deus Moeda, no seu ridículo cotidiano de servidor burocrata? Deus, o Deus que você acredita, morre de rir, será que o morrer para a divindade permanece, no alto da bilionésima e infinita morada dele, diante da sua gananciosa súplica? Ele se entendia, brincando com sua fé, do não ser, do vir a ser, do futuro paradisíaco que você pede a ele depois do nada. Você continua o canalha acumulador.

Depois da morte pede o tudo ao deus-dará. Você se diz crente em Deus, e brada contra todos os pecados do mundo, mundo de sua rapadura bíblica, engalanada no sovaco de seu terninho engravatado, símbolo tipificado de sua pseudo imaculada imagem. Você se diz pio, crente no seu Deus que você sabe que ele não é senão para servi-lo. Deus é sua volúpia suprema, a mulher pederasta que você sempre desejou e nunca teve. Você me diz que a lógica dele é extemporânea. Não vivenciando no mundo dos pecados, você o explica e se redime, se é que haja remissão no pai que colocou o filho para acabar com os pecados do mundo, e o fez crucificado. O divino dentro do seu Deus não defeca, não urina, não tem as doenças dos mortais. Afinal, ele é o inverso do universo mesquinho que você faz no seu cotidiano. Todas as leis, faça-me rir, diante do descalabro humano, foram criadas por ele. A relação do astro maior com o menor, bem como a relação com seu estúpido patrão terreno, a função elíptica do movimento celeste, a translação e a rotação da Terra, Deus, ele, o plenipotenciário, fez tudo num átimo, num macro segundo, munido de um diapasão regedor da sincronia sinfônica intemporal. Não bastando, jorrou o esperma de sua masturbação divina, e nos fez a criatura malfeita dele, gerada na aridez do deserto da existência dele, ele nos fez, como peidos no meio de um oceano, náufragos de todos dentro de uma luta intestina, sem ganho ou causa.

Não satisfeito, ele nos deu padres e bispos evangélicos, passadores de sacolas coletadas no dízimo abjeto cobrado do suor de imbecis crentes por um futuro melhor. Ele tornou o mundo dividido por guerras genocidas, tudo pelo ardor acéfalo da fé. Fez de Moisés um assassino genocida tirano, mil vezes pior que Átila e Hitler conjugados. Colocou em nós o germe da autodestruição, e nos fez judeus e palestinos, islâmicos e cristãos, pretos e brancos, pobres miseráveis e ricos opulentos, todos nós polvilhados e fermentados com a sua sacrossanta aparência. Isto que escrevo, além do meu desdém para o Deus que você crê e devota a sua fé bastarda, é o reverso dos deuses que passam por mim no meu dia a dia. É o Deus do cotidiano, que habita na marmita fria, daqueles que andam de ônibus para o trabalho, que se humilham para casar bem as filhas, que se aposentam e deliram febris nos corredores dos postos/matadouros da saúde municipal. O seu Deus habita em igrejas universais, palacianas e farisaicas. O meu Deus mora nas dignas favelas, que jamais ouvirão as malditas pregações impregnadas do hálito fétido da sua verborragia teológica, supostamente eivadas de falsas boas novas, que você promove inescrupulosamente para um mundo melhor. Melhor será o nosso mundo quando for enforcado o último crédulo como você no Deus da mitológica e parasitária fé, com a tripa do último pastor que o seduziu.

Odair Castilho - RG 5.604.771

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