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Dr. Automóvel: Os sem-noção

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Com esta coluna de hoje, completamos 100 artigos dedicados ao nosso melhor amigo, ou seja, nosso próprio carro. Falamos de vários assuntos, alguns muito técnicos, outros mais leves, mas sempre focados no veículo ou em seus componentes. Hoje vamos fazer diferente, para comemorar. Vamos falar daquela pecinha que fica sentada sobre o banco do motorista, logo atrás do volante. Não é uma peça qualquer, pois sem ela o carro não anda. Esta peça, teoricamente, era para ser perfeita, pois não foi projetada nem construída por nós, engenheiros, mas sim, pelo Grande Arquiteto do Universo. Apesar disso, existem algumas destas peças que não desempenham direito sua função de dirigir. Na maioria das vezes não por problemas de hardware, já que o projeto original é muito bom, mas por mau uso, má escolha ou defeitos de instalação do software. Seu processador (que nesta peça costuma-se chamar de cérebro) processa tudo o que lhe for encaminhado de acordo com o software pré-instalado, e se este estiver corrompido ou for pirata, poderá dar resultados inesperados.

Algumas destas peças fundamentais para a condução do veículo ainda aparentam não ter instalado em seu HD (ou cérebro) nenhum software, o que é mais preocupante ainda. A estes componentes vitais chamo de “sem-noção”.

É claro que para ver as horas não precisa saber como funciona um relógio, nem para dirigir um carro precisa saber tudo de mecânica. Mas seria muito mais seguro se conhecêssemos o mínimo necessário para nos dar uma garantia de segurança em uma viagem, e este é o objetivo principal desta coluna. Sabermos o suficiente para nos prevenirmos de acidentes, fazendo manutenção preventiva e corretiva em tempo hábil, antes que seja tarde demais. A primeira coisa que aquele componente vital deveria ter noção seria do espaço que ocupa, qual o tamanho do seu carro, onde se posicionam as rodas, paralamas e parachoques. Desta forma evitaria problemas de estacionar em garagens apertadas e raspar no carro dos outros. Outro dia deixei meu querido carro estacionado na calçada em frente de casa e, quando retornei, algum sem-noção de distância havia manobrado mal e quebrou (rachou mesmo) meu pára-choque traseiro, que é de plástico, como a maioria hoje em dia, infelizmente. O sem-noção foi embora e eu fiquei com o prejuízo e a úlcera. Tem sem-noção que procura combustível mais barato sem se preocupar com a qualidade, e acaba estragando seu motor. Aí vende o carro para outro sem-noção, desta vez sem a menor noção da porcaria que está comprando.

Noções básicas de resistência dos materiais e leis da física como a da ação e reação e a de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo não precisam ser ensinadas apenas na universidade, pois são intuitivas. Qualquer software básico instalado em cérebros daquelas peças vitais deveria conter estes conceitos, mas não é o que parece. É comum vermos algum sem-noção carregando 2 toneladas em uma Kombi que agüenta menos de uma, ou viajando em estrada com um carro 1000 com esposa, três filhos, sogra, cachorro e papagaio, com um baita bagageiro carregado no teto e puxando carreta... Seu software não reconhece que os limites físicos impostos pelo projeto são fatores de segurança que não devem ser ultrapassados, pois certamente algo irá quebrar. Precisa ensinar isso ou seria pedir demais?

Alguns sem-noção não só não entendem de mecânica como também não sabem regras básicas de trânsito. Ou tem outra explicação para aqueles que insistem em dirigir devagar pela esquerda, só porque pretendem fazer uma conversão daqui a 27 quadras? Ou os que param no meio de duas vagas de estacionamento, meio de lado, atrapalhando os outros e tirando a oportunidade de outros estacionarem, sem contar aqueles que insistem em estacionar em vagas reservadas a deficientes e idosos, pois se julgam “espertos” ou alegam que “é só um minutinho, que está com pressa”, mas para mim tem software pirata instalado. Alguns não percebem como incomoda os outros o fato dele dirigir com os faróis desregulados, que além de ofuscar quem vem no sentido contrário ainda prejudica a iluminação de seu próprio caminho. Será que não percebe isso? Espero que no futuro estas peças vitais sejam mais bem programadas e utilizadas.

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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.

Sugestões para a coluna e perguntas à seção Correio Técnico devem ser enviadas ao e-mail automerc@jcnet.com.br ou à redação do Jornal da Cidade, na rua Xingu, 4-44, Higienópolis. É obrigatório informar nome completo, RG, endereço e contato (telefone ou e-mail).

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