“Paulo Autran é um ser humano incrível. É um exemplo de pessoa que conseguiu realmente viver, sobreviver e brilhar da arte do teatro”, diz a atriz bauruense Arieta Corrêa. Autran faleceu aos 85 anos em 12 de outubro do ano passado, no hospital Sírio-Linabês, em São Paulo, após lutar contra um câncer de pulmão enfisema pulmonar. Mas, na maioria das vezes em que fala dele, a atriz usa verbos no presente, como se ele ainda estivesse atuando nos palcos.
Em entrevista do Jornal da Cidade na semana passada, Arieta conta sobre a peça “O Avarento” que interpretou ao lado dele, “A primeira e última”, fala, com seu humor peculiar. O carinho, admiração e amizade que sente pelo ator fazem seus olhos brilhar ao falar de Autran.
A atriz vai estrear uma nova peça no primeiro trimestre do ano e participará de um workshop que será a aula inaugural dos alunos do Curso Livre de Teatro Paulo Neves, em fevereiro, em Bauru.
Jornal da Cidade - Como era Paulo Autran pessoalmente?
Arieta Corrêa - Paulo é uma história de amor com o teatro. Ele é um cara que em nenhum momento se vendeu. Fez as coisas dele sempre com uma preocupação em dar alegria para as pessoas. Era um ser humano incrível.
JC - Você teve o privilégio de ficar bem próxima da família dele. Como foi essa experiência?
Arieta - Eles me adotaram mesmo. A gente ia almoçar pelo menos uma vez por semana com eles. E hoje, a Karin Rogrigues, ex-mulher dele e o Gustavo Machado (ator) são os meus melhores amigos em São Paulo. A gente sai para jantar toda semana. Eles já estão me ligando para dizer que já estou aqui (em Bauru) há muito tempo porque estão com saudades.
JC - Você esteve ao lado do Autran no hospital?
Arieta - Eu acompanhei tudo de perto. Eu era uma das únicas pessoas que entrava no quarto do Sírio-Libanês (hospital). Fiquei realmente muito próxima dele. Me dá muitas saudades quando eu penso. (Silêncio) É lindo tudo o que ele fez. Às vezes dá vontade de chorar, porque ele é uma pessoa que faz falta. É uma pessoa mesmo, não estou falando só do artista. Ele é um querido.
JC - Como era o comportamento dele fora dos palcos?
Arieta - Algumas pessoas têm a impressão que o Paulo é um velhinho bonzinho. Tinha gente que chamava ele de Paulinho. Ele odeia. Ele era um jovem. A gente ia jantar e ele adorava ir aos restaurantes em São Paulo. Era a coisa que ele gostava de fazer. A gente falava cada barbaridade. Ele contava as histórias dele de mil anos atrás.
JC - Como era o humor dele?
Arieta - Nossa, era maravilhoso! Não é à toa que ele me adotou porque eu tenho o humor negro, absurdo. Sou irônica e ele é a pessoa mais transparente e honesta do mundo. Ele ficava impressionado com a minha cara-de-pau, com meu jeito. Ele falava que eu sou a Karin mais nova. A gente brinca que a Karin tinha que ser interditada (risos). Uma vez a gente estava no Parídio (um restaurante em São Paulo) e o garçom pisou no pé dela sem querer. Nossa! Ele quase morreu na hora que percebeu. Ela virou para ele e falou ‘muito obrigada. Foi ótimo para mim esse contato’. O cara crente que ela ia processá-lo.
JC - E como ele se comportava com as pessoas?
Arieta - O Paulo era um lorde, superfino, mas uma simplicidade e humanidade muito grande. Ele ajudava as pessoas. Depois que ele faleceu, descobrimos ele pagava estudos da filha da empregada e outras pessoas. Ele era incrível, uma pessoa muito generosa e iluminado. Ter estado em cena com ele, pertinho assim, vendo o olho dele, não tem escola que vai me ensinar um negócio desse.
JC - E no palco? Como ele era?
Arieta - Olha o Paulo...ele era assim. Eu estava falando um texto. Por ironia do destino, minha personagem era a única que tinha um pouquinho de drama. E aí quando eu estava fazendo uma das cenas mais dramáticas, ele combinou com o diretor marcações de cena para ele ficar de frente para mim e de costas para a platéia para ele ficar fazendo careta. Ele mostrava a língua e ficava vesgo. Eu falava ‘não vou agüentar’ porque sou riso frouxo. Aconteciam coisas assim. Ele saía do palco e ficava na coxia com a gente, fumava, entregava o cigarro para a camareira antes de entrar em cena. Ele era assim. Viveu plenamente. Foi uma honra mesmo, de coração.
JC - Foi a primeira vez que você trabalhou com ele?
Arieta - Foi. Primeira e última (risos). Piadinha de humor negro (risos).
JC - Quais são seus planos para este ano?
Arieta - Quem dirigiu o “Avarento” foi o talentoso Felipe Hirsch. Ele me convidou e aceitei fazer o próximo espetáculo dele que se chama “Não sobre o amor”. É uma história de amor que realmente aconteceu através de cartas. Uma mulher pede para o homem - que é um escritor - não escrever sobre amor porque ele a ama, mas a sufoca. É um drama, mas leve. O papel do homem é de Leonardo Medeiros, que é um grande ator de cinema.
JC - Qual é o seu papel?
Arieta - Eu faço a musa dele. Só tem os dois na verdade. Ela se chama Alya.
JC - Onde será a estréia?
Arieta - O Banco do Brasil está patrocinando e a gente estréia no Rio de Janeiro e depois vai para São Paulo, Brasília e Curitiba. A gente vai viajar o Brasil em temporadas. O Paulo (Neves) e o Thiago (Alves Neves) vão tentar trazer o espetáculo para Bauru.