Regional

Menor morre em lavoura de laranja

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 6 min

Pederneiras - Um acidente matou ontem Andrei Rodrigues, 15 anos. Ele foi atropelado por um trator usado no carregamento de laranja. Conforme o Ministério Público do Trabalho (MPT) em Bauru, o menor trabalhava irregularmente na coleta de sacolas de laranja, caracterizando trabalho infantil. O acidente ocorreu na fazenda Água de Ouro, no distrito de Santelmo, em Pederneiras (26 quilômetros de Bauru). O horário do acidente seria entre 1h30 e 2h. O adolescente chegou a ser levado para o hospital da cidade, mas não resistiu aos ferimentos.

Ao JC, o pai do menor, Jonas Rodrigues, 58 anos, confirmou ontem que o filho não tinha registro de trabalho e atuava no transporte de laranjas há cerca de 23 dias. “Ele estava lá trabalhando fazendo carga do caminhão”.

O pai explica que o filho saía de casa diariamente às 18h e retornava, geralmente, 3h30. “Tinha dia que era 2h30, outro dia, quinze para às quatro da madrugada”, acrescenta.

O delegado adjunto de Pederneiras, José Claudinei Salvadeo, instaurou inquérito policial para investigar a atuação do tratorista João Pereira Barin, 26 anos, responsável pela operação das máquinas – trator e guincho. Salvadeo esclarece que, caso ele tenha agindo com imperícia, imprudência ou negligência, ele poderá ser indiciado por homicídio culposo – sem intenção de matar.

Também está sendo investigado o acidente de trabalho. “Vamos analisar se ele (João) não tomou os cuidados no ato de dirigir o trator”, ressalta. O delegado explica que o inquérito também apura se havia vínculo empregatício de empresa com o menor e se foi descumprida alguma das normas de segurança do trabalho. De acordo com Salvadeo, a apuração irá estabelecer o responsável por essas possíveis irregularidades.

As laranjas colhidas durante o dia na propriedade ficam em sacos – “bags” – pesando aproximadamente 500 quilos. No período noturno, os sacos são carregados da plantação para um caminhão. Um trator acoplado a um guincho levanta os sacos, levados até o caminhão onde são despejados.

Na operação efetuada na fazenda, o trator se aproxima de frente até o ponto onde estão os sacos. Em seguida, o veículo volta em direção ao caminhão de marcha a ré. Andrei estaria fazendo o trabalho de engatar a alça do saco no guincho, na parte de traseira do trator. O tratorista operava o controle do guincho do lado direito enquanto Andrei estaria do lado esquerdo.

“João alegou que não tinha visão de onde estava o Andrei. Já o ajudante João Carlos Barin disse que o ‘bag’ estava mais do lado esquerdo e que, realmente, o João Pereira Barin estava com a cabeça voltada para o lado direito. Ele (João Carlos), após engatar o ‘bag’ se afastou e foi para frente do trator. A hora que ele olhou para traz, viu o Andrei caído, gritou e o João parou de imediato”, explica Salvadeo.

Conforme o delegado, Andrei provavelmente caiu no espaço entre as rodas do guincho e a do trator e a roda esquerda traseira do trator atingiu parte de seu rosto e tórax. Salvadeo ressalta que o laudo da Polícia Científica poderá esclarecer alguns detalhes de como ocorreu o acidente.

Andrei foi socorrido no caminhão até Santelmo, onde foi transferido para um veículo e de lá para o pronto-socorro da cidade.

O delegado disse que ontem, após colher alguns depoimentos, não tinha como afirmar se Andrei estaria trabalhando. “Como menor de 15 anos, ele não poderia ser empregado, porque menor não pode trabalhar, principalmente no horário noturno. O que a gente vai verificar se de fato ele estava trabalhando. Caso estivesse trabalhando, mesmo de forma ilegal, caracterizaria o vínculo empregatício da fazenda ou da empresa”, explica o delegado.

No entanto, Salvadeo disse que Andrei acompanhou João e era amigo dos demais que carregavam as laranjas na fazenda. No entanto, duas versões apresentadas em depoimentos, ontem, ao delegado por quem teria presenciado se contradizem. “Segundo o João Pereira Barin, ele teria ajudado a colocar as alças no guincho. Segundo outro ouvido, ele falou que não viu ele colocar e que só estaria acompanhando no local”, relata o delegado. Salvadeo pretende esclarecer a divergência de versões.

O JC procurou, ontem, o tratorista João Pereira Barin. No entanto seu telefone celular não atendeu as inúmeras tentativas de contato. Também foi feito um contato com um número que seria da fazenda onde o tratorista trabalhava, mas que também não foi atendido.

Estudante

Andrei iria cursar a partir deste neste ano o segundo ano do ensino médio. Ao lado da irmã Andressa, de 9 anos, era muito querido no distrito de Santelmo, onde nasceu. “Era um moleque que não tinha igual. Era estudioso”, lamenta a perda o pai Jonas Rodrigues. As versões desencontradas sobre o acidente que matou o adolescente causaram estranheza nos familiares de Andrei e depois indignação.

“Ficamos sabendo do acidente de qualquer jeito. Agora (meio da tarde) que estão chegando as informações de como aconteceu. Eles (pessoas que trabalhavam com o menor) não apareceram para dar uma assistência. O advogado deles informou que não era para eles virem aqui porque seriam linchados. Mas aqui não tem nenhum marginal para pegar eles de pau como estão pensando. É tudo gente boa”, desabafa o pai.

A rua José Vicente Arantes, onde residia Andrei, estava tomada por amigos e familiares que velaram o adolescente em casa. O sepultamento foi às 17h30, em Santelmo. A mãe Raquel Morais Mendes estava muito abalada para comentar a morte do filho.

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Situação caracteriza trabalho infantil

A condição de trabalho infantil que resultou na morte do menor Andrei Rodrigues é apurado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) em Bauru. O procurador do Trabalho Marcus Vinicius Gonçalves, que esteve ontem na delegacia de Pederneiras para se informar sobre os depoimentos prestados à Polícia Civil. “O mais grave é ser trabalho infantil, sem registro e no período noturno”, avalia.

Ele diz que, na semana que vem, irá convocar a empresa para uma audiência para a assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC). “A empresa terá que se comprometer a jamais fazer uso de trabalho infantil, salvo na hipóteses legais”, afirma. Se a empresa não cumprir o acordo, terá que pagar uma multa. Caso a firma responsável se negue a assinar o TAC, o procurador do Trabalho irá entrar com uma ação civil pública. “Isso é para evitar o trabalho de menor. Mas fora isso, a MPT vai entrar em contato com a família do menor porque numa situação dessa cabe uma reparação, porque o menor sofreu um acidente de trabalho. Por ele não estar registrado, a família não vai gozar do benefícios cabíveis como uma pensão”, ressalta.

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