As freqüentes notícias sobre a má qualidade do ensino brasileiro têm preocupado os educadores, pais e alunos, já que os programas de avaliação institucional, tanto estrangeiros (Pisa), como brasileiros, seja em nível federal (Saeb) ou estadual de São Paulo (Saresp), revelam que nossos jovens apresentam baixo desempenho em leitura e cálculo, cujos resultados nos remetem aos últimos lugares do ranking entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Com o início de um novo ano letivo, assaltam-lhes as dúvidas: Por que os educadores não conseguem ensinar os estudantes? Seriam os métodos inadequados? Para onde vão os recursos da educação que tem percentuais definidos nos orçamentos públicos? Ainda não se investigaram as causas da má qualidade do ensino? Nessas ocasiões, não raro, recorre-se à evocação do passado para rememorar como era bom o ensino de antigamente, que qualidade tinham os professores, como eram aplicados os alunos, quase fazendo apologia do “Ateneu” do professor Aristarco! Há aqueles que vão mais longe buscando, na antiga Grécia - berço da civilização ocidental e da democracia -, a figura do pedagogo (do gr. paîs,paidós ‘criança’ + agog?s,ós,ón ‘que guia, conduz’) para traçarem um paralelo entre os educadores atuais; porém, eram escravos que acompanhavam os filhos dos membros da aristocracia à escola.
Deste modo, desde que a sociedade foi organizada em classes, de cuja organização surgiu a divisão social do trabalho, a educação passou a ser um privilégio da classe alta. Por conseguinte, desde épocas imemoriais, quando os grupos humanos fixaram-se à terra e tornaram-se sedentários, explorando a agricultura e a pecuária, propiciaram o aparecimento da riqueza (excedente de produção que podia ser estocado por longos períodos), a classe alta, que assumiu o poder e o controle da sociedade, passou a ter - e somente ela - o privilégio da educação para sua prole, para desfrutar o “ócio com dignidade”.
Em razão disso, desde a Antiguidade, a elite governa e usufrui os bens da sociedade, inclusive os culturais, assim sendo precisa de uma educação de alto nível, enquanto a classe dos homens livres não-proprietários estava alijada do processo educativo e os escravos sequer chegavam à condição humana. Ao longo do tempo, os integrantes das classes baixas foram chamados de: escravos, periecos, plebeus, servos e, com a industrialização, operários.
Enquanto o modo de produção restringia-se à exploração da terra, a ralé ficou sem a mínima instrução, pois o trabalho que se lhe exigia era braçal, cujo aprendizado dava-se diretamente no local de produção. Entretanto, à medida que, sob o influxo da ciência, a ênfase recaiu sobre a transformação de bens, a indústria prosperou e passou a exigir, gradativamente, maior formação técnico-científica das classes trabalhadoras - o operariado. Então, há 200 anos, nascia a escola como hoje a conhecemos: a reprodução da qualificação (diversificada) da força de trabalho não mais ocorre no “local de trabalho”, porém cada vez mais fora da produção, através do sistema escolar capitalista.
Ora, à medida que a ciência avançou e modificou os meios de produção, igualmente o ensino capitalista foi aperfeiçoando técnicas pedagógicas que resultaram na “escola simultânea” - passou a adotar procedimentos didáticos capazes de instruir uma grande quantidade de alunos ao mesmo tempo. Lembremo-nos de que os grandes mestres tinham uns poucos alunos (discípulos) ou tornavam-se preceptores de um único “príncipe”. Com a expansão do modo capitalista de produção e a democratização das sociedades, essa forma de educação não era mais economicamente viável. Também os membros da classe alta passaram a negar o ócio e, dessa maneira, fazer negócio.
Os sistemas públicos de educação surgidos a partir da Reforma Protestante (século XVI) e, no Brasil, efetivado a partir da industrialização iniciada no governo Vargas (1930), cada vez mais, valem-se da Pedagogia (agora como ciência da educação e não meramente um escravo condutor de crianças, à moda grega) para aperfeiçoar técnicas, procedimentos metodológicos para obterem êxito na formação das classes trabalhadoras, ainda que sob formas que assegurem a submissão à ideologia capitalista dominante ou o domínio de sua prática. Foi por isso que a sociedade brasileira conseguiu universalizar o ensino, somente no final do século passado, mas com baixa qualidade.
Então é necessário investir-se em pesquisa educacional, recorrer aos avanços científicos, às novas tecnologias de informação e comunicação, para formarmos cidadãos críticos, reflexivos, autônomos, capazes de fazer a sociedade avançar. Aliás, é para frente que se vai. Reafirmamos que a ciência é aliada da educação, de modo que não se devem retomar métodos experimentados e falidos, a exemplo do tecnicismo/behaviorismo de nossa antiga LDB, como desejam alguns professores saudosistas, nem tampouco importar modelos estrangeiros que não se adaptam à nossa realidade, como já se fez no passado.
É claro que também existem os professores “novidadeiros”, sequiosos por utilizarem modelos recém-surgidos e ainda não estudados/testados suficientemente; então, incorrem nos efeitos da “Lei de Murf” (se alguma coisa pode dar errado, vai dar errado). Temos em nossas universidades programas de pós-graduação sérios, que direcionam suas pesquisas para darem respostas às necessidades atuais. Investem na ciência (não no cientificismo) para aperfeiçoarem as relações ensino e aprendizagem. Finalizando, citamos as últimas palavras de Goethe antes de morrer: “mehr licht!” [deixem entrar] mais luz.
Rivaldo A. Paccola - professor universitário - RG 5.537.096