Parece que realmente o Brasil é o país do automóvel. Este título não é só porque aqui temos muitos campeões no automobilismo, além da maior parte da matriz de transporte ser composta pelo sistema rodoviário. Para reforçar o assunto, o Brasil no ano de 2007 bateu o recorde de produção de automóveis, quase três milhões de unidades.
Tudo seria muito louvável e mereceria comemoração, se esses fatos não fossem acompanhados por tamanha desgraça para os cidadãos brasileiros. Os acidentes no trânsito vitimam milhares pessoas por ano no país. Os motivos são os mais diversos, desde a baixíssima infra-estrutura do país, até a irresponsabilidade dos motoristas.
O ano de 2007 foi espetacular para indústria automobilística. Quase 3 milhões de automóveis (automóveis, camionetes e caminhões) foram vendidos no país. A indústria automotiva utilizou cerca de 80% de sua capacidade produtiva, para alimentar as vendas nas concessionárias. O setor automotivo é de grande importância para economia de uma nação. A cadeia produtiva pode alavancar não apenas o setor secundário, mas toda economia nacional.
No Brasil, os automóveis são responsáveis por 18% do PIB industrial e cerca de 5% de todo o PIB do país (US$ 53 bilhões). Os empregos gerados, diretos e indiretos, são notáveis, 1,3 milhão de pessoas estão ligadas a esse setor. Esses empregos estão espalhados pelas montadoras, empresas de autopeças e concessionárias, somadas chegam a 200 mil empresas.Poucos países apresentam plantas automotivas tão sólidas e produtivas. As empresas estão presentes em 8 Estados e possuem 25 unidades de produção, 27 municípios dependem dos impostos e consumos gerados pelas indústrias (R$ 25 bilhões em impostos).
Porém, apesar de todo crescimento das vendas e arrecadação tributária, a infra-estrutura não se adequou, o quadro ficou e está caótico.
A matriz de transportes do Brasil é uma das mais caóticas do mundo, e possui uma composição totalmente antieconômica e irracional. O sistema rodoviário é responsável por 60% da carga do Brasil, a ferrovia, adequada para grandes distâncias e para o transporte em massa de passageiros, representa 24% da matriz do país. Os números são de guerra, 35 mil pessoas são mortas pelos acidentes de trânsito ao ano. Deste número, 2/3 deles são ocorridos nas ruas das cidades brasileiras.
O Natal de 2007 não teve nenhum motivo para comemorar, 196 pessoas morreram nas estradas federais e 44 nas estradas do Estado de São Paulo. Estes números são superiores aos do ano de 2006, e ultrapassaram em muito, das vítimas do pior momento de cada ano, o Carnaval.
O Carnaval - 2008 apresentou 45 mortos nas estradas paulistas, além de incontáveis feridos. O palco da tragédia é sem duvida nenhuma, a baixíssima infra-estrutura rodoviária. Pistas mal conservadas, mal sinalizadas, invasão de bairros em áreas de autopista e baixa porcentagem de pavimentação, são elementos indutores para a tragédia nacional.
Porém, os atores que circulam por este palco são em grande parte, os responsáveis pelos desastres automobilísticos. Todos os especialistas (policiais rodoviários e engenheiros de tráfego) são unânimes em dizer, que a maioria dos acidentes, são por imprudência dos motoristas.
O crescimento não só promoveu o aumento da venda dos veículos, mas fomentou a venda de bebidas alcoólicas e viagens. A profunda falta de respeito pelas leis de trânsito e o consumo inadequado de bebidas alcoólicas foram os maiores motivos para a ratificação da tragédia. Todos sabem do baixíssimo nível da educação brasileira, esta carência é estampada nos números desastrosos. A falta de responsabilidade e de respeito pelo próximo perpassa pela baixa educação, moral e ética do povo brasileiro. Em um exercício de pensamento, podemos chegar à conclusão que a falta de infra-estrutura retorna para explicar este triste fenômeno. A educação do cidadão, as leis coercitivas e o aparelho repressor são elementos do cuidado governamental da base de um país. Mesmo com o lucro recorde na arrecadação de impostos, o governo pouco aumentou os investimentos e a intenção de melhorar o sistema rodoviário brasileiro.
O autor, Eli Tavano Toledo, é professor de Geografia - eli_geo@yahoo.com.br