Cultura

Minha casa, sua casa

Thatiza Curuci
| Tempo de leitura: 5 min

“Quando estou chorando, precisando da ajuda da minha amiga, bato na parede e ela vem me ver, mesmo se for de madrugada”, conta a estudante de jornalismo da Universidade do Sagrado Coração Flávia Maria de Lima, 20 anos. A amiga a quem ela se refere, Fernanda Aparecida da Silva, 20 anos, aluna de enfermagem, é, na verdade, quase uma irmã.

Elas moram no mesmo pensionato, próximo da universidade, e a única coisa que as divide é uma parede. Fazem quase tudo juntas: estudam, se divertem, choram, trocam confidências, etc. Moram em um quarto, cozinha e banheiro onde tudo fica em seu devido lugar. “Desculpe, pois minha cama está um pouco bagunçada”, diz Flávia. Que nada! Os bichinhos de pelúcia, os livros, os cadernos, as fotos e até a Bíblia estão bem organizadas.

Quando se referem ao pensionato, falam do lugar como sua “casa”. O que significa que, aos poucos, conseguiram se adaptar ao novo espaço e à nova cidade. As duas vieram de municípios menores do que Bauru, no interior do Estado.

“Freqüentamos festas juntas e também vamos ao shopping para ir ao cinema”, conta Fernanda. Antes de morar em Bauru, ela ficou dois anos em Ourinhos. Mais “experiente” em morar fora de casa, ajuda a colega a se adaptar. “Sou muito apegada à família, mas já me sinto mais adaptada agora. Costumo conversar bastante com a Flávia para que ela também se sinta bem”, conta.

Os colegas Leandro Piaggi Ravaro e Jorge Luiz Barbosa Maciel Júnior cursaram química juntos. Nesses anos de convívio, um ajudou o outro a se acostumar com as mudanças de cidade e de amigos. “Antes, morávamos em uma república cheia de gente. Um era mais louco que o outro”, brinca Leandro. Aos poucos, a república foi ficando menor e agora, depois de formados, os dois decidiram morar no Centro da cidade. “Optamos por morar em outra região, mais distante da universidade, para conhecer outras pessoas e ter mais contato com a cidade. Para ir e voltar da faculdade, vamos de bicicleta”, conta Jorge.

Repúblicas e vizinhos

Sempre que um ano letivo começa, a república onde mora o estudante de relações públicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Vladislau Bühler, o Juca, faz as programações de festas. Eles conhecem a maioria das bandas universitárias e contam com a vantagem de cada morador da casa ser de cursos diferentes: cada um organiza um “setor”. “Temos estudantes de relações públicas, design, ciências da computação e rádio e TV. Enquanto ajudo na divulgação, o pessoal de design faz os cartazes”, conta.

Mas nem sempre a alegria dos universitários é a mesma dos vizinhos. Alguns ficam incomodados com tanto barulho, nas altas horas da madrugada. Quando as brigas começam a aparecer, o jeito é negociar.

“Na última festa, um vizinho reclamou. Estamos pensando em pagar uma diária de hotel para ele no dia em que fizermos festa. Outras repúblicas fazem isso e geralmente os vizinhos aceitam”, diz. Às vezes, o agito dos jovens é visto com bons olhos. “Já tivemos um vizinho que saiu de casa para reclamar da festa, mas acabou entrando na república e se divertindo”, conta Juca.

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‘Reps’: todos os estilos para morar

Os oito amigos – todos de São Paulo - que dividem uma república perto da Universidade de São Paulo (USP) não podem reclamar. A casa onde moram tem três quartos e duas edículas, televisão a cabo, sala de jantar e cozinha completas, computador nos quartos e até sofás na sala: um luxo para qualquer república. Os estudantes de engenharia de produção Bruno Shoiti, 24 anos, e Roberto Giamei Galera, 22 anos, são integrantes da república. Para manter tudo em ordem, eles mantém uma faxineira duas vezes por semana.

“Ela está acostumada com nossa maneira de viver e nos ajuda muito”, diz Roberto. Como a limpeza da casa está garantida, o estudante tem mais tempo para fazer outras coisas. “Dá para estudar e freqüentar a academia”, conta.

Bruno gosta de assistir aos canais por assinatura e ficar na Internet. Ele participa da equipe de baseball da faculdade. “Para dar tempo de cumprir todos os compromissos, nós mantemos tudo organizado, mesmo com oito homens na casa”, garante.

Uma baguncinha de vez em quando é comum na casa da estudante de odontologia da USP Luíza Afonso Gomes, 21 anos. Toda semana, ela transforma a sala do apartamento onde mora com três colegas em um “abrigo” para os amigos. Jogos da Seleção, filmes e até programa de TV são motivos para reunir a galera. “Estar junto dos amigos faz com que eu me sinta mais feliz. No dia-a-dia, a correria é tanta que não dá muito tempo para sentir saudades da casa dos pais, mas à noite e aos finais de semana, a carência é mais forte e os amigos são fundamentais”, diz.

Para ficar próximo dos novos amigos, vale até organizar churrascos no prédio ou na casa de amigos. “Principalmente no início do ano, a galera se reúne para apresentar os bichos. É o momento de colocarmos a fofoca em dia e matarmos as saudades”, fala.

Ficar junto dos amigos é parte importante para os jovens se adaptarem à nova rotina. Quando encontram amigos da cidade de “origem”, fica melhor ainda. Bruno Crivelaro Giraldi, 20 anos, Aline da Silva Quadros, 21 anos, e Ivelise Benício de Souza, 22 anos, são de Arealva. Isso os deixa ainda mais unidos. “Todo estudante se sente um pouco perdido quando começa uma faculdade em outra cidade. Ficar com pessoas que você já conhecia antes ajuda muito nesse processo”, opina Aline.

“Se você não tem parentes na cidade, os amigos ficam ainda mais próximos”, complementa Ivelise. Bruno também tem uma opinião parecida com a das amigas: “O primeiro ano é o mais difícil para se adaptar. Os amigos da mesma cidade são fundamentais nesta fase”, diz.

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