Tribuna do Leitor

Um imbatível guerreiro


| Tempo de leitura: 5 min

... que se foi prematuramente, deixando milhões de órfãos, irmãos brasileirinhos numa imensa lacuna no caldeirão da política nacional, quando mais precisávamos desse extraordinário homem público. Era ele um vulcão em plena atividade em sua oratória espontânea, cujas lavas impregnadas de civismo, “arrancavam” aplausos em profusão até dos seus adversários políticos, os quais, com raras exceções, ousavam abordá-lo, embora sempre ficassem em plano secundário. Extraordinário, admirável!!!

Nos dias 21 de maio de 1977, na cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, portanto, há uma geração, marca-se o seu falecimento, após completar 63 anos de idade. Numa demonstração de que sempre será lembrado, foi realizada missa em sua homenagem no dia 30 de abril do corrente ano, data de seu nascimento (1914), na Igreja Nossa Senhora do Carmo, no coração da sua cidade natal (Rio de Janeiro).

Era filho do magnificente tribuno Maurício de Paiva Lacerda, que atuou também como jornalista e combativo político e da dd. sra. Olga Werneck de Lacerda. Com vocação jornalística, Carlos, aos 15 anos de idade, foi trabalhar em vários órgãos de imprensa carioca, tendo iniciado no tradicional Diário de Notícias e nessa jornada trabalhando como redator e colaborador, a exemplo de “O Jornal”, “Diário Carioca”, “Correio da Manhã” e “O Estado de São Paulo” - o Estadão -, passando então a dedicar-se à “Tribuna da Imprensa”, paralelamente com o cargo eletivo, tendo apresentado inúmeros e diversificados projetos nos quais seu esforço se concentrava pela aprovação da Lei de Diretrizes e Bases pela Educação, tornando-se um obcecado pela mesma:

Dedicava-se de corpo, alma e coração num turbilhão de embates, de forma extremada, à nossa esplendorosa nação. Jornalista cuja pena era vibrátil em seu verbo arrasador, foi fulgurante escritor e político atuante, sempre empenhado em defender as justas e nobres causas. Tendo ingressado na política quando cursava a faculdade de direito, cujo curso foi interrompido no segundo ano, por perseguição dos dominantes da época, porquanto, como perenal contestador, foi líder estudantil com idéias socialistas. Nos anos de 1947 foi guindado à vereança pela outrora Capital da República, na legenda da União Democrática Nacional (UDN), com esmagadora votação, até então nunca obtida como candidato a esse cargo eletivo, sendo que após dois anos de mandato, renunciou em sinal de protesto ao Congresso Nacional, que determinava a si a apreciação dos vetos do primeiro mandatário do município, numa inequívoca demonstração de coerência política. Encômios.

Sempre intransigente, combatido aos desmandos públicos, fazendo rigorosa oposição ao então presidente da República, dr. Getúlio Dornelles Vargas, ex-ditador, simpatizante do denominado “Eixo” - Alemanha, Itália e Japão. Certa feita, o chefe da guarda pessoal palaciana (Gregório) e seus asseclas provocaram o atentado político na Rua Toneleiros, Copacabana, tentando eliminar o citado político, entretanto tornou-se vítima fatal, o seu amigo, o major Rubem Vaz, da Aeronáutica, acontecimento esse que gerou a deposição do presidente, em 1954, após longas vigílias, denúncias e “dossiês”, comprovando o covarde crime.

Destacando suas qualidades inconfundíveis de homem íntegro, corajoso e batalhador, o insigne jornalista Carlos Frederico Werneck de Lacerda, no ano de 1960, discursou em Cuba e com o seu altíssimo e incomparável dom da oratória, deu uma aula de genuíno democrata, desmascarando o próprio ditador Fidel Castro em sua ideologia barata! Seu pronunciamento em idioma castelhano foi divulgado além fronteiras de Cuba.

Entre as inúmeras obras executadas por seu intermédio e sempre vistoriadas pelo mesmo, destaco a ligação entre as zonas norte e sul, perfurando rochas e abrindo canais, suprindo a falta d’água (que infernizava os cariocas) pela implantação da Adutora do Guandu (denominada Eng. Veiga Brito) com estimativa de suprimento de água até o ano 2000 (existem boatos oriundos dos seus covardes inimigos políticos, que não tinham nada contra a sua capacidade e sobretudo moral de homem público, tentavam então macular seu nome, tendo inventado o afogamento de mendigos no rio Guandu, cuja água ainda abastece o Rio de Janeiro). A colossal obra de lazer, através da pista dupla do aterro do Flamengo, constituída paralelamente em inúmeras quadras de futebol de salão, outras de esportes atléticos e até quadras de tênis para a população... imaginem os meus distintos compatriotas!!

Creches e escolas em profusão, assim como moradias populares, porém, decentes, com toda a infra-estrutura, a exemplo da “Vila Kennedy”, onde as mesmas tinham dois a três dormitórios, etc. A citada Vila encontra-se lá há mais de uma geração e quantos formandos da favela saíram de lá! O governador, em companhia de outra figura marcante, d. Elder Câmara, removeram os favelados para lugares aprazíveis da “Cidade Maravilhosa” de outrora. Se os atuais sucessores da política nacional tivessem seguido o completo cronograma da cidade, não teríamos favelas, assim como, analfabetos, filas nos postos de saúde, violência... é uma questão de reflexão e lógica, pois não? Pergunto eu...

Amante da natureza, dedicava-se ao plantio de rosas em seu sítio do município de Petrópolis (RJ) (principado do Brasil-Colônia!); criava pássaros e cães. Destacou-se também obtendo absoluto êxito nas publicações de suas obras literárias, tendo sido um dos principais líderes da revolução do regime militar (1964) e teve seus direitos políticos suspensos em 1968, por razões alicerçadas por: “Castelo..., disse ao presidente Humberto Castelo Branco, - voltemos ao regime de direito, redemocratizando o País e não escute o senhor Roberto Marinho”, fato esse muito comentado em vários círculos da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro. Foi condecorado “in memoriam” com a “Ordem do Congresso Nacional”.

Ao genuíno, esplendente jornalista, idealista e nacionalista, Carlos Frederico Werneck Lacerda, reverencio com imensurável saudade à sua memória a quem tive a grande honra e o raro privilégio de conhecer no Palácio Tiradentes, apresentado quando deputado federal, pelo meu inolvidável pai, o jornalista Álvaro Monteiro de Carvalho.

Arthur Monteiro de Carvalho Netto

Comentários

Comentários