A alegria de chegar em casa com o filho no colo apenas minimizou o trauma dos pais do bebê Carlos Daniel de Moraes. Embora o seqüestro tenha terminado com final feliz para a família do recém-nascido, a mãe dele, Indaiá Souza, 16 anos, ainda chora ao recordar os momentos de agonia vividos enquanto o paradeiro do menino era ignorado.
“Eu quero que ela seja punida”, afirma, ao mencionar a dona de casa Rosa Maria Floriano, 31 anos. Após fazer amizade com a família do bebê, ela fugiu com a criança da Maternidade Santa Isabel, na tarde de anteontem. Quatro horas depois, o bebê foi recuperado. De poucas palavras, Indaiá admite carregar no peito bastante mágoa, fruto da raiva e do medo de não encontrar mais o filho. “Ela planejou tudo”, diz.
Ao alegar ser acompanhante de uma prima, tornou-se próxima da mãe da adolescente, Maria de Fátima Souza. “Ela parecia uma menina amável, alegre, contente da vida. Não mostrava problema em nada”, explica a avó de Carlos Daniel, que também soube das perdas de Rosa Maria, conhecida como Dedé. No final do ano passado, morreram a mãe, o irmão e o sobrinho dela.
A autora do seqüestro, que na maternidade disse corretamente seu nome e o bairro onde vive, ainda contou para Maria de Fátima sobre os abortos que sofreu. “Conversou, deitou no sofá, deu a maior força para a gente. Ela falou para a minha filha tomar banho e ficar bonita para o marido, que ela ficava com o bebê”, conta a avó do recém-nascido.
Naquele momento, ela e o marido de Indaiá, Daniel Teixeira de Moraes, 22 anos, voltaram para Agudos, onde vive a família. Pouco tempo depois, ele retornaria para a Maternidade Santa Isabel, onde seu filho nasceu por acaso. “Eu fui para Bauru só para fazer um exame. Era para ele nascer em Agudos. Mas quando o exame terminou, me seguraram para eu ter o bebê”, comenta a adolescente.
Segurança
Após o resgate, anteontem à noite, para conseguir dormir algumas poucas horas na maternidade, protegeu o bebê de forma que percebesse se alguém tocasse nele durante a noite. Ela ficou na companhia da mãe, também bastante emotiva com a situação. “Ela (Rosa) dava dinheiro para comprarmos pão e café na padaria em frente. Pagou até meu passe. Eu ainda tremo de pensar, estou com os nervos à flor da pele. Quero justiça”, confessa Maria de Fátima.
Sua preocupação é tanta que ainda sente medo de permanecer sozinha em casa com a filha e o neto. Ela teme que Dedé seja liberada da prisão e apareça na casa delas.
____________________
Prisão
A dona de casa Rosa Maria Floriano, 31 anos, (imaginária) continua presa na cadeia pública de Avaí. Ontem, o marido dela Jonathan Ribeiro Domiciano, 20 anos, procurou um profissional para defendê-la.
“O advogado foi lá e disse que ela ainda está cuidando de uma filha a Dedé. É só olhar para ela para ver que tem algum problema. Nem eu a reconheci. Eu queria muito vê-la”, diz o rapaz, que trabalha numa horta. Segundo familiares relataram, desde que Dedé foi presa, o rapaz está com dificuldades em se alimentar.
Ele confirma ter acreditado na gravidez da mulher, com quem vive há mais de dois anos e meio. Gostaria de ter batizado o primogênito de Richard.
____________________
Nota oficial
Mas segundo nota encaminhada pela Associação Hospitalar de Bauru (AHB), responsável pela administração dos hospitais de Base, Manoel de Abreu e Maternidade Santa Izabel, foram seguidas, rigorosamente, as normas determinadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) referentes à visitação e acompanhantes de pacientes, inclusive na Maternidade Santa Isabel.
De acordo com os procedimentos do SUS, são previstas quatro horas diárias de visita, divididas em dois períodos: manhã e tarde. É permitida a entrada na unidade hospitalar de dois visitantes e um acompanhante, por paciente. A orientação é desconhecida pela assessoria de imprensa do Ministério da Saúde. Segundo o órgão, cada instituição é livre para estabelecer sua rotina.
“A AHB ressalta em relação ao episódio ocorrido ontem (anteontem) que Rosa Maria Floriano, presa em flagrante horas depois do fato, permaneceu durante todo o dia anterior conversando com a avó e o pai da criança do lado externo da maternidade. Salienta-se ainda que ela entrou na maternidade acompanhada pela avó do bebê. Para a equipe de funcionários, a autora seria visitante da paciente”, acrescenta a nota.