O artista, o amigo, o ser humano. Difícil traduzir em palavras o que me vai na alma. Um misto de tristeza, ausência, saudade, dor no peito, a sensação de estar com os pés e mãos atados... O que falar de Val Rai? Sobre o artista não temos palavras e sim ações. Trabalhos maravilhosos realizados por uma pessoa especial em termos de criatividade. Seus poros respiravam arte, sua mente pensava em arte, a arte fazia parte de seu eu.
Trabalhou com Antunes Filho, no CPT, em São Paulo. Como ator fez “Romeu e Julieta” e diversos trabalhos com Dercy Gonçalves. Como cenógrafo foi por muito tempo o braço direito de J.C. Serroni, um dos maiores cenógrafos do Brasil e até premiado no Exterior. Como produtor, trabalhou ao lado do cantor e músico Toquinho, viajando por todo o Brasil para levar aquele show “Aquarela” por diversos cantos do País. Fez o filme “Hans Staden” ao lado de grandes astros. Encantou-se com o butoh e foi ao encontro do Mestre Kazu Ono para aprender a sentir o butoh, pois essa dança de origem japonesa não se aprende, se sente. E ele sentia como ninguém o butoh.
Seu último trabalho entre nós, “Lá vem o Trem da Terezinha, o trem que parado causa dor”, mostrava tudo que esse grande butoísta ainda poderia fazer aqui entre nós para encantar seu público fiel.
Mas não deu tempo! O artista Vai Rai nos deixa órfãos num momento muito importante de nossa caminhada, mas, mesmo assim, todos nós, artistas como ele, sabemos que essa luta não pode terminar e que o artista vai aonde o povo está, como já dizia Milton Nascimento. Sobre o amigo.... Ah, fica muito difícil colocar no papel a amizade de quase 35 anos. Mas mesmo com os amigos mais recentes essa sensação é a mesma... Porque ele era intenso. Sua amizade era firme, sincera, verdadeira.
Ele nunca se escondeu em meias palavras para dizer o que sentia. Falava e pronto. Estava pronto para todos aqueles que precisavam de sua amizade, de seu conselho, de sua palavra amiga. Ah, que saudade vamos ter do amigo...Vai ser difícil acostumar com sua ausência. Sobre o ser humano. Não tenho o que dizer. Só quem conheceu a fundo o Val Rai ou Valdir Raimundo, seu nome de batismo, sabe o que estou querendo dizer: bom filho, ótimo irmão, apaixonado por seus sobrinhos que o idolatravam e um ser humano honesto, íntegro, correto, acima de qualquer suspeita. Um homem pronto para o trabalho, sempre pronto! Para tudo. Dos bate-papos nos bares em hora de lazer até as reuniões mais complicadas com empresários, secretários de cultura, pessoal das associações de sua classe era sempre a mesma pessoa. Um homem firme e bom. Um ser humano que poucos podem se dignar a ser.
Aplausos ao nosso amigo Val Rai... O céu está em festa e nós sabemos disso... Amigo, continuaremos seu trabalho, ajudaremos os companheiros e familiares assim como você faria se estivesse aqui. Vá com Deus e que sua luz continue a brilhar em nossos corações.
Madê Corrêa - amiga, colega de trabalho e fã incondicional