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Mato é sujeira?


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Mato e mata nativa. Verde ou chão de terra. Lei municipal vai dar 30 dias para corte de mato alto e limpeza de terrenos particulares e públicos. Mas, o que é mato? Mato não é sujeira. Cobertura vegetal também não. Como distinguir “mato” de mata? A nossa rica Mata do Cerrado. Mato é gramínea e grama é planta, mato é pasto para cavalos de tração, exaustos e famintos. Terrenos com verde - com planta forrageira e árvores - são refúgio e alimento de pássaros, insetos e microorganismos. Muitos fazem o ninho no chão. A vegetação evita enchentes e erosão do solo, propicia ar mais úmido, evaporação e precipitação, absorve águas da chuva. Então, como ficamos?

É uma lei válida (seria desnecessária se os cidadãos cumprissem seu papel social), mas haverá orientação e funcionários preparados para execução deste serviço ambiental? A população fará, salvo exceções, o que sempre fez: passar o trator em tudo! Ou mandar cortar tudo! Ou pôr fogo em tudo! É mais cômodo, rápido e barato. Profissionais das áreas de Ciências Biológicas e Engenharia Florestal deveriam compor os quadros dos órgãos públicos que viabilizam questões de meio ambiente. Este projeto, se mal executado, vai acelerar o processo de desmatamento em Bauru, perderíamos amplas áreas particulares com mata nativa. Em recebendo a notificação de “limpeza”, espera-se que as pessoas tenham critério para distinguir entulho e sujeira do que seja mato e mata. Evidentemente, pressupõe-se que mato que invada calçadas, ruas e casas deva ser cortado. Entretanto, árvores não! Inclusive, áreas públicas poderiam receber a plantação de árvores frutíferas. Por fim, removida a sujeira, a população precisa saber se o fiscal não multará terrenos que permanecerem com vegetação.

É difícil prever resultados positivos se esta lei não estiver associada a campanhas de conscientização e educação ambiental, se não priorizar a preservação da natureza, e se não for definido o que seja sujeira (coisa que não requer grande esforço de inteligência), para que, então, os infratores possam ser eficazmente multados. Aqueles que jogam lixo e entulho em lugares públicos sentiriam que estão na contramão do processo civilizatório.

Mas, para descondicionar o olhar antes de cortar o “mato”, nada melhor do que os versos de Tom Jobim em “Borzeguim”: “Deixa o mato crescer em paz...Deixa o mato crescer, Deixa o mato...Não quero fogo, quero água... Escuta o mato crescendo em paz, Escuta o mato crescendo, Escuta o mato...”. No contexto da música, mato mesmo ou mato como metáfora de vegetação e natureza, foi a primeira vez que ouvi alguém falar poeticamente de um termo tão vulgarmente usado e desprezado por todos.

A propósito, urge somar esforços às propostas do secretário municipal da Semma, Rodrigo Agostinho, à receptividade positiva do prefeito Tuga e do secretário estadual Francisco Graziano, ao empenho do Instituto Vidágua e outros ativistas para preservação em definitivo dos 60 hectares da floresta urbana da Água Comprida. Este importante assunto exige rapidez, negociação política, olhos voltados para o futuro e a expectativa de que interesses particulares não se sobreponham ao coletivo: loteamento e condomínio para poucos ou equilíbrio ecológico para muitos?

A autora, Sonia Marques Joaquim, é professora aposentada da Unesp/Bauru

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