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Bob Dylan canta, mas parece falar

Por Ivan Finotti | Marco Aurélio CAnônico
| Tempo de leitura: 4 min

Bob Dylan não é exatamente artista de palco, e o jeito como canta seus sucessos tem decepcionado tantas gerações quanto tem influenciado. Em São Paulo, não foi diferente, e por que seria? Seus discos ao vivo mostram que há anos ele desistiu da melodia em prol de um canto nasal falado.

E como a harmonia das canções passeia apenas em cima de sóis, fás e dós, com um eventual lá menor no refrão, reconhecer uma música num show de Bob Dylan é trabalho duro. É preciso decorar as letras. É preciso ter boa vontade com a voz rouca do homem de 66. É preciso não se irritar com o fato de Dylan não permitir telões. É preciso pagar uma grana preta. É preciso binóculo para ver o que acontece ali naquele palco.

Por exemplo: Bob Dylan, o homem que não sorri, sorriu o tempo todo! Enquanto cantava suas músicas sarcásticas, ria como um garoto entre um verso e outro, puxando gargalhadas do resto da banda. “Vejo que você está com seu chapéu de pele de leopardo novinho/ Você fica linda com ele/ Posso pular pular em cima dele uma hora dessas?/ Só quero saber se ele é mesmo daquele tipo caro”, murmurou na primeira das 17 canções, “Leopard-Skin Pill-Box Hat”, clássico de 1966.

E a segunda: “It Ain’t Me, Baby”, de 1964, que parece de amor: “Você diz que procura alguém/ Que te levante sempre que cair/ Que lhe dê flores e apareça quando você precisar/ Um amor para toda a vida”. Mas tem um refrão venenoso: “Não sou eu, garota/ Não, não, não sou eu que você procura”.

Dylan seguiu com os hits, “I’ll Be Your Baby Tonight” (1967) e “Masters of War” (1963), mas foi a partir da quinta música - já no teclado, onde ficaria até o final do show - que começou a se divertir de verdade. Ao apresentar as novas canções, levantava o pé para trás, rebolava, dançava, jogava os ombros, fazia caretas, mexia a cabeça como um robozinho, ria, ria e ria. Assim foi com “Spirit on the Water”, “When the Deal Goes Down” e “Workingman’s Blues #2”, três lindas músicas de 2006 que, daqui a alguns anos, serão consideradas importantes no cancionário dylanesco.

Por enquanto, ainda são as “novas chatas que tomam o lugar das famosas nos shows”. “Não é comum Dylan rir em seus concertos”, conta o americano Bill Pagel, que mantém há 13 anos o site Bob Links (www.boblinks.com), que contabiliza todos as performances, músicas tocadas, entrevistas e aparições do cantor. “Diria que ele se divertiu bastante aí”, comenta o pesquisador. Provavelmente mais que a platéia.

Essa, apesar de reverenciar com aplausos respeitosos, só se empolgou com “Like a Rolling Stone” (1965). Dylan a canta de jeito bizarro há tempos, como se pode constatar, por exemplo, no “MTV Unplugged” (1995). Apesar de irreconhecível, foi reconhecida pela frase inicial: “Once upon a time you dressed so fine”.

A melhor execução foi a de “Highway 61 Revisited” (1965), superpesada, calcada no baixo de Tony Garnier, o único músico de Dylan que participou dos dois últimos discos, de 2001 e 2006. A banda, cinco homens de preto com ternos, chapéus e bigodinhos, é excelente.

E “Blowin’ in the Wind” (1963), contrariando as chances de 85,7% - e para tristeza do senador Eduardo Suplicy - foi, literalmente, soprada pelo vento. Dylan trocou-a por “All Along the Watchtower” (1967), o que havia feito em apenas um dos sete shows da atual turnê.

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‘Paguei para tocar no Dylan’, diz invasora

Não sabendo que era impossível, ela foi lá e fez. Laura Artioli, 21 anos, aluna de geografia da PUC-SP, chegou a seu “inacessível” ídolo Bob Dylan na marra: subiu duas vezes ao palco em que o cantor se apresentou, ontem, e chegou a tocar no ídolo antes de ser retirada do Via Funchal com seu namorado e companheiro de invasão, Gregório Gananian.

À medida que iam sendo arrastados para fora da casa de show, pouco antes de Dylan sair para o bis, os dois tentavam argumentar com os seguranças. “Era o meu sonho, se fosse o seu, você ia fazer a mesma coisa”, dizia Laura. A garota invadiu o palco logo na primeira música do show. Surpreendentemente, não foi retirada da casa de imediato e voltou à carga durante o clássico “Like a Rolling Stone”.

“Na primeira vez, eu encostei nele. Na segunda, quando ia encostar, me tiraram. Você viu minha saída? Foi um balé”, disse. O casal não escondia que a ação havia sido premeditada. “É lógico, o que eu ia fazer, ficar sentada na cadeirinha, batendo palminha quando acabasse cada música? Paguei R$ 500,00 para tocar no Bob Dylan”, disse Laura.

Também estava evidente que as ações haviam sido catalisadas pela bebida. “Ele está bêbado, moço”, disse Laura sobre Gananian, à medida que este tentava explicar seu feito.

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