Um velho mal-humorado, sentado em uma cadeira de balanço, reclamando de tudo e de todos (principalmente das dores nas juntas e das doenças advindas com a idade). Esta é a idéia que muitas pessoas ainda guardam dos idosos longevos (embora existam inúmeros casos por aí capazes de provar o contrário).
“A questão não se resume a alcançar uma idade avançada, mas em viver mais e melhor”, explica o geriatra Júlio Rodrigues Horta Filho. Ou seja, idosos longevos devem se esforçar para levar uma vida com qualidade, a despeito dos problemas crônicos que possam apresentar.
“O conceito de saúde mudou em nossa sociedade. Antes, era sinônimo de ausência de doenças; hoje, está mais relacionado à idéia de independência e autonomia”, salienta o médico. “Atualmente, graças às inovações tecnológicas, é possível fazer com que idosos vivam normalmente, apesar das doenças crônicas que possam ter”, reforça.
O fato de ter de tomar comprimidos para controlar a pressão arterial não impede que a aposentada bauruense Zaira Carlette do Prado sinta-se uma mulher saudável aos 78 anos de idade. “Moro sozinha e tomo conta de minha casa sem precisar pedir ajuda a ninguém”, garante.
Semana retrasada, ela foi até o Serviço Social do Comércio (Sesc) de Bauru para se inscrever em atividades voltadas à terceira idade. Em apenas dois dias, mais de 400 idosos se inscreveram em cursos de artesanato, gastronomia, cultura digital, esportes, jardinagem e saúde disponibilizados pela instituição.
Enquanto aguardava para ser atendida, a aposentada Alice Romualdo Shioka, 83 anos, era toda animação. “Nunca senti dor em minha vida. Danço, faço caminhadas e hidroginástica; não posso ficar parada um minuto sequer. Nem televisão eu consigo assistir”, garante ela.
Shioka afirma haver conquistado 20 medalhas em competições organizadas pela entidade. Dentro de algumas semanas, ela pretende viajar para Betioga, litoral de São Paulo, em excursão a ser promovida pelo Sesc.
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Do tempo do sinhô
Natural de Agudos, o violonista bauruense Joaquim Carmelo Grillo é um homem cuja trajetória ajuda a demonstrar o quanto é complicado se definir uma causa preponderante para a longevidade. A avó do músico foi escrava e viveu até os 93 anos. “Ela era do tempo do sinhô. Contam que morreu de velhice, só que tenho lá minhas dúvidas... Sim, pois se for assim, acho que se esqueceram de mim”, brinca ele.
Dizer que os genes são os fatores que fizeram Carmelo, como é conhecido por amigos e familiares, alcançar a casa dos 90 anos seria algo arriscado. “É que meus pais faleceram cedo, com pouco mais de 60 anos”, conta.
Carmelo, que já tocou em orquestras da cidade ao lado de grandes nomes da música brasileira (entre eles Sílvio Caldas, Orlando Silva, Carlos Galhardo e Dalva de Oliveira), prefere creditar sua longevidade ao modo de vida que leva.
“Gosto de procurar meios para me sentir ocupado. Nunca paro: quando não estou mexendo no jardim, estou ensaiando com meu violão ou lendo algum livro sobre história da antiga. Isso me distrai e me mantém alegre”, diz Carmelo, que também é artesão (confecciona miniaturas). Aos domingos, ele ainda costuma tocar violão nas missas maronitas da igreja de Nossa Senhora do Líbano, na Vila Mesquita.