A população da região de Bauru voltará a conviver, já a partir do dia 2 de abril, com oito meses de fuligem, o chamado “carvaozinho”, que empreteja carros, chão de garagens, irrita as donas-de-casa, que têm que refazer a lavagem de roupas estendidas nos varais, dificulta a respiração, principalmente no período do inverno, e provoca câncer conforme comprovam estudos.
Os transtornos com a queima da palha da cana-de-açúcar devem acabar em 2014 para áreas em que o corte pode ser mecanizado e 2017 para terrenos em que a declividade impede o uso das máquinas atualmente oferecidas no mercado.
Ontem, produtores paulistas e o governo do Estado de São Paulo assinaram novo protocolo de cooperação que fixa as novas datas para a extinção do fogo nos canaviais. A lei em vigor estipula 2021 para áreas mecanizáveis e 2031 para áreas de relevo acidentado como limite para a prática de incêndio na cana.
O secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Francisco Graziano, cobrou do setor a antecipação do fim das queimadas em áreas mecanizáveis já em 2012. O Protocolo Agroambiental, ao qual usineiros aderiram no ano passado, recebeu, ontem, a adesão da Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul (Orplana) - entidade que representa 13 mil pequenos produtores de cana.
Entre os presentes à cerimônia, no Palácio dos Bandeirantes, estavam os produtores ligados à Associação dos Plantadores de Cana da Região de Jaú (Associcana), que acompanharam as novidades para o setor de produção da matéria-prima paralelas à assinatura do acordo.
O presidente da Associcana, Francisco Paulo Brandão, comenta que é cedo para fixar a antecipação do fim da queima para antes de 2014. “Foi em um momento de maior entusiasmo do secretário Francisco Graziano, porque se continuar nesse ritmo pode ser que até 2012 aconteça o fim das queimadas”, considera.
Brandão alerta que há uma necessidade urgente do setor de produção de maquinário disponibilizar no mercado colheitadeiras de menor porte que possam entrar em áreas de maior declividade. “Menores e mais baratas e que possam ser adquiridas pelo produtor”, salienta.
Ao defender o fim do fogo para a colheita da cana, o governador José Serra (PSDB) alertou para o grave problema gerado para a saúde pública e o meio ambiente. O Estado de São Paulo tem hoje cerca de 4,2 milhões de hectares de cana de açúcar plantada.
Foram colhidos no ano passado 3,4 Mha de cana, dos quais 900 mil hectares sem queimadas - os 2,5 Mha restantes foram queimados. “Para se ter uma idéia, 2,5 Mha correspondem à área de 16 cidades de São Paulo. É um índice altíssimo”, salienta Serra.
Cada hectare de cana queimado emite 300 quilos de material particulado, o que causa problemas respiratórios e sobrecarrega o sistema de saúde pública. No ano de 2006, os 2,5 Mha de cana queimados emitiram 750 mil toneladas de particulados. As emissões de poluentes, já altas, observou Serra, tenderiam a crescer significativamente com a expansão da cultura da cana. “Por isso, resolvemos adotar medidas antecipando os prazos para a eliminação das queimadas”, explicou o governador.
“Para que se tenha uma idéia quantitativa, sem o protocolo e dentro da legislação vigente, em 2014 ainda haveria 3,8 Mha sendo queimados, um aumento de 50% com relação a hoje. Com o protocolo, teríamos toda a área mecanizada sem queima. E, da área total, teríamos apenas 440 mil hectares e não 3,8 milhões de hectares”, disse o governador. “Ou seja, haverá uma diminuição de 8,5 vezes da área queimada”.
A Associcana integra mais de 900 produtores da microrregião de Jaú e que devem produzir, nesta safra, que começa a ser colhida no próximo dia 2, de 3,5 milhões de toneladas e 3,6 milhões, conforme Brandão. Essas lavouras estão espalhadas pelos municípios de Jaú, Bariri, Barra Bonita, Bocaina, Brotas, Dois Córregos, Igaraçu do Tietê, Itaju, Itapuí, Mineiros do Tietê, Santa Maria da Serra e Torrinha.
Também na região de Bauru, a Associação dos Plantadores do Médio Tietê (Ascana) integra 1.020 produtores que, na safra passada, produziram cerca de 7,4 milhões de toneladas, a maioria entregue para as usinas Zillo Lorenzetti, Santa Maria, São Manuel e também da região de Manduri.
Os membros da Ascana estão espalhados por Boracéia, Pederneiras, Macatuba, Areiópolis, Pratânia, Avaré, Lençóis Paulista, Águas de Santa Bárbara, Domélia, Agudos, Borebi e Piratininga.