Uma coisa é falar da legalidade de estabelecimentos públicos, perturbação do sossego público e direitos do cidadão. Outra coisa é falar apenas da personalidade de donos de bares, como se isso bastasse para definir critérios de normatização do funcionamento dos mesmos. A boa convivência entre pessoas passa por leis e regras sociais. Quando se fala em bares que não estão em corredores comerciais e do ruído e intranqüilidade que causam, como é o caso notório do boteco da rua Benjamin Constant, no Higienópolis, não se está perseguindo ninguém nem se está falando da vida pessoal nem do caráter de seus donos - que devem ser ótimos - mas sim dos abaixo-assinados e queixas de vizinhos, que, neste caso, têm motivos sólidos para reclamar. É um grande equívoco misturar as coisas e ignorar o lado dos reclamantes.
Aliás, a falta de isenção e de questionamentos leva nossa sociedade à aceitação de grandes equívocos. A Procuradoria Geral da União está em greve por aumento salarial e poucas pessoas discutem esse grave assunto, considerando-se que os integrantes dessa categoria federal já recebem salários vultosos, têm regalias de sobra e poder de barganha para conseguir mais benefícios e dinheiro para si próprios, pagos por nós, contribuintes. A média atual de aumento salarial é de 5 a 7% para o trabalhador normal, mas eles já tiveram o maior aumento de que já se ouviu falar neste governo de Lula, e agora querem mais 25%.
Ao ameaçar um pedido de exoneração coletiva, mostram que não aceitam colaborar com o País depois da perda da CPMF. Pois o governo federal devia aceitar a exoneração para melhorar a credibilidade perdida nesses anos de tanta concessão, de alianças duvidosas, de aceitação dos atos escusos de políticos de sua sustentação, de falta de uma palavra condenatória dos desvios públicos.
Não adianta o esforço da Polícia Federal se o presidente passa a mão na cabeça de companheiros que praticam atos “indevidos”. O reflexo está aí, no aumento do antiético jeitinho brasileiro. A economia vai bem, houve avanços sociais neste governo Lula, mas a que preço!
Outros equívocos: extasiado com a viagem à Antártida, o presidente diz que quer ampliar a presença brasileira no local. Ora, pois deveria dizer o contrário: vamos nos retirar deste maravilhoso e ainda quase inexplorado e inóspito lugar, vamos deixá-lo livre das garras humanas, vamos convencer outros países (parece que gosta disso) a preservar o continente gelado. Mas como esperar isso de um presidente que vai pescar nas férias, melhor dizendo, vai matar peixes, se usarmos as palavras certas, sem equívocos ou edulcorantes. Pescaria (esportiva ou comercial) é o ato de fisgar, capturar, matar ou machucar peixes, colaborar para o extermínio da vida marinha e a devastação dos oceanos, já tão afetados pelo impacto das ações humanas (vejam a ótima matéria do JC sobre isso, 18/02/08, p. 21). Em contraposição, a seção do jornal de incentivo à pescaria como “lazer e divertimento” e as fotos do “Troféu Pescador” são, sem dúvida, outro grande equívoco!
Paula M. Gama - RG 16.581.521